Aquiles enfrentou seu luto por Patroclo sujando suas mãos de sangue. Atravessou sua própria dor pela brutalidade da guerra , pelo assassinato de Heitor, pela loucura da morte e do ódio cego. Mais sorte ele possui, por poder dar destino heróico e sentido à insensatez dos acontecimentos da vida. Ainda que, para isso, não tardasse a chegar o castigo dos deuses e, desse fato, a tragédia. Porém , mais trágica que a própria tragédia é a pequeneza de espírito. Pois pobre daquele que perde seu melhor amigo para o egoísmo, o tédio , o orgulho e a vaidade. O ato heróico é inseparável de um inimigo nobre, cujo rosto se vê. Então , o que se faz com um vilão cujo espectro é o rosto difuso da mediocridade? Antecipa-se a desistência. E louva-se a letargia: apenas morre-se aos poucos.
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Aquiles enfrentou seu luto por Patroclo sujando suas mãos de sangue. Atravessou sua própria dor pela brutalidade da guerra , pelo assassinato de Heitor, pela loucura da morte e do ódio cego. Mais sorte ele possui, por poder dar destino heróico e sentido à insensatez dos acontecimentos da vida. Ainda que, para isso, não tardasse a chegar o castigo dos deuses e, desse fato, a tragédia. Porém , mais trágica que a própria tragédia é a pequeneza de espírito. Pois pobre daquele que perde seu melhor amigo para o egoísmo, o tédio , o orgulho e a vaidade. O ato heróico é inseparável de um inimigo nobre, cujo rosto se vê. Então , o que se faz com um vilão cujo espectro é o rosto difuso da mediocridade? Antecipa-se a desistência. E louva-se a letargia: apenas morre-se aos poucos.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Engana-se quem pensa que a morte é tão somente o cessar das
nossas funções vitais. A morte é o tempo que nos transforma em outro com seu
andar. Tenho saudades de quem eu era , das minhas ilusões. Lá eu vivia feliz,
como um bobo alegre que faz corte ao rei e a ele se entrega por completo. Ai bufão
que eu era: sorridente e tagarela. Cego em meus devaneios, na redoma calorosa da
bondade e do sonho. E aquele narcisismo
acrítico então...só deixou boas lembranças! Eu que , não vendo vaidades em mim, tampouco as via no outro, podendo amá-lo mais sinceramente...
Mas a foice do tempo e da morte me espreitou matando quem eu
era. E agora lamentar é como gritar ao vento.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
A gente aprende que ser herói é fazer grandes feitos, ser o
primeiro colocado, vencer, prender bandidos, salvar inocentes. Quando na
verdade, ser herói é simplesmente salvar a si mesmo. É acordar todo dia de manhã para trabalhar,
ainda que seja um trabalho chato, entediante ou sem sentido e dar a ele algum
sentido. Realizá-lo bem porque é preciso. É preciso por respeito a si próprio,
para que seu tempo ao menos tenha sido utilizado de forma minimamente digna. Já que somos obrigados a trabalhar, por
necessidade, que de alguma forma seja um trabalho apreciável, que nele contenha
sinais de talento, esmero ou perfeição. Se fossemos outro e nos observássemos à
distância, o que veríamos então? Gostaríamos? É não
deixar ser contaminado pelo “monstrinho” da preguiça, da mediocridade. Além
disso, é tentar ser um pouquinho menos ignorante todos os dias, um pouquinho
mais generoso em um sistema econômico que estimula tanto a competitividade e o
individualismo. É fazer sempre um exercício de humanidade e humildade e
perceber nossas fraquezas, que muitas vezes são as fraquezas de todos nós, fraquezas
humanas: inveja, covardia, medo, soberba, vaidade, orgulho...e tentar contornar isso tudo, através de um ato diário de força contra o que há de mais vulgar e grotesco dentro de nós mesmos.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
O encontro
Ali estão os dois sentados, na mesa do café do shopping. Ele toma café preto, ela capuccino. Você não
os vê? Venha mais a direita, agora sim! Olhe, aquele é o Rafa, veja como ele
sabe sorrir de forma amena, possui a voz suave e estilo despojado, barba mal
feita e tênis all star. Há-há! Não é típico? Aquela ali é a Paty que, ao contrário, preocupou-se em se arrumar
dentro de um padrão mais básico: salto, maquiagem e jeans. Sim! Ela é bonita... não se anime ainda, é cedo. Continuemos observando (aparentemente chegaram há pouco) .
.... eu não vou
condená-la; ela veio me dizer aquilo a respeito do Jorge, achando que ficaria
contra ele e a verdade, Paty, é que não
ficarei do lado de nenhum dos dois. Está certíssimo, não vale a pena,
você sabe né, que os dois têm suas razões, ninguém é perfeito. É claro que sei
, por isso mesmo! Ele possui um gênio difícil e ela.... ai.. eu sei Paty, vai
parecer maldade, não me leve a mal, você sabe melhor do que ninguém que não sou disso... mas a verdade é que ela precisa arrumar logo um namorado, anda tão cinza, amargurada, você não
acha? Eu não queria falar mas já que você falou! Tá na cara que é isso , por trás daquele ar de independência há muita frustração, eu sei que há...
Ei meu chapa! Esta
escutando? Claro que sim, e por que você me trouxe aqui? é só para ouvi-los brother , só isso. Hmmm então me diga, qual a
razão dos dois se encontrarem? Eles são
amigos de longa data, não se veem há, provavelmente,
anos; Amigos? Isso, amigos de faculdade,
eu chequei antes de sair de casa, estudaram juntos ! Ah malandro, agora não é hora para ironias, você entendeu.
Voltemos nossa atenção a eles.
....o Rodrigo me ligou
semana passada, ele anda tão materialista Rafa, precisa ver, só fala de
dinheiro . Está cada vez mais vazio, chato , superficial; sabe aquela pessoa que
não pensa em alimentar o espírito só o bolso. Quando eu disse para ele
aproveitar já que está ganhando bem e
fazer umas viagens , curtir a vida, sabe o que ele me respondeu? Que preferia
guardar e aplicar o dinheiro no mercado de ações. Ai que pobreza de espírito Paty! Se fosse
nós já estaríamos de mochila nas costas, conhecendo o mundo . Deus
dá asas a quem não sabe voar. Também
acho, não sou tão consumista, tenho
amigas que entram em uma loja e saem com quatro sapatos e nem preciso dizer que parcelado haha. Eu hein! meu dinheiro vai todo para viagem,
isso sim fica para a vida toda.....
Olha... já estão se levantando. Quanto tempo ficaram
conversando? Talvez uma hora? Espera , ainda tem o derradeiro abraço, a
despedida calorosa ! Escute!
Paty, queridona ! foi
tão bom conversar com você , saudade danada da sua risada gostosa. E continua
linda, felizardo é o Carlinhos hein! Quando virão os filhos? Não sei querido, primeiro
estabilidade financeira, você viu o preço das escolas , dos imóveis? só sei
quem será o padrinho, meu grande amigo aqui! Não vamos mais ficar tanto tempo
sem nos ver assim querido, você faz tanta falta, fiquei tão feliz em saber mais
de você. Eu também Paty, quero ter sempre
notícias suas, eu sei que a vida é corrida mas não suma. Ah.. depois envio as
fotos pela internet. Já sinto saudades ! Tchau meu lindo. Tchau.
E então camarada? Que tal
? Para mim basta. Para mim também; é o suficiente. E o que faremos? Estou na
dúvida se uma bomba ou uma tese. Talvez seja melhor um conto. Eu prefiro
simplesmente ir ali e tomar um milk shake.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Não ouso definir o amor
, mas contrariar uma idéia presente no discurso cotidiano a respeito dele . Uma idéia ilógica
e vulgar, que por tanto, deforma o sentido vivo de estar sob o estado amoroso,
empobrecendo nossa experiência emocional. Minha motivação partiu de
encontrar-me hoje envolvida em uma conversa entre mulheres bonitas e bem
sucedidas que bem poderiam ser protagonistas
de uma série de televisão à moda “sex and the city”. E então ouço a queixa de uma
delas a respeito de sua ida infrutífera à balada, onde não “pegou” ninguém.
Como dizem por aí ficou no zero a zero. Em
seguida, uma delas é aconselhada a passar um feriado na localidade x e não na y
porque aqui não encontrará quem seja “pegavel”, só gente feia (sabe-se lá
quando se ama quem é feio quem não é?) . Não demora a surgir uma nova queixa: a
de que em determinado lugar os homens eram cerca de cinco anos mais novos que
elas, e por isso, não pegáveis. Por fim, o lamurio final, o de
que o mercado de homens está escasso. Não é pavoroso dizer “mercado de homens”?
No entanto, a expressão é plenamente coerente com o conjunto do discurso
descrito acima. Seria de conseqüência isenta trazer uma palavra própria da
atividade mercantil para definir os percalços do encontro amoroso? É claro que
não.
Essas são falas que
ouvi hoje e não ouvi hoje. Porque levando em conta suas variações, é uma fala revivida, repetida por
outras bocas em outros momentos. Não
cito a fala masculina por aqui não caber e não estar nela envolvida. Mas de modo algum negaria seus vícios, nem sua cruel agressividade. Quem nunca
ouviu as condições (mentirosas) deles para seu próprio objeto amoroso: jovem,
magra, submissa. De todo modo, mover-se
por vingança não pode ser vantajoso. Tampouco por insegurança, ou defesa. A
questão amorosa não pode se valer de estratégia para funcionar.
Aliás, do que se vale o
amor? O incoerente é que tal pergunta não se faz, porque tanto mais se entende
o amor quanto mais se sente, e menos se raciocina sobre ele. Talvez por isso
quem mais o defina é aquele que mais o exprima pela intuição, pela via indireta
do dizer: a poesia, a música, a pintura. O gesto ,o olhar, o pulsar. Por isso é melhor pensá-lo
como um disparo de Cupido, algo súbito que só a fantasia explica.
Pelo amor ser
indeterminado e distante de figuras pré moldadas é que o discurso acima me espanta.
É demasiado utilitarista. Como se buscar um amor não fosse tão diferente de
buscar sucesso ou investimento. Por que a probabilidade de encontrá-lo é maior
aqui e não ali? Como saber previamente quais características nele serão amáveis?
Quem pode dizer quando ou quem amaremos a não ser Cupido?
Há uma certeza moderna de que hoje, a mulher é livre e independente para amar quem quer que seja. Quando na
realidade, ser livre no amor é simplesmente buscá-lo sem ambições de sucesso, é
esperá-lo como se espera a vontade onipotente de um bom deus.
terça-feira, 3 de julho de 2012
Pudera ter sonhos, febril
Pudera ter artes, querelas
Pudera ser forte gentio
Pudera ser outro pudera
Quem sabe nadar pelos rios
Quem sabe corrê-los a vela
Pudera ser nobre gentil
E quereria então a donzela
Pudera tecer outros fios
Pudera esquecer tais mazelas
Pudera ser outro, sadio
Um outro em mim prepondera
segunda-feira, 4 de junho de 2012
quinta-feira, 10 de maio de 2012
terça-feira, 24 de abril de 2012
Ontem estive na livraria e deparei-me com um livro de
Freud, Luto e Melancolia, uma edição (como sempre) bela da Cosac Naif,
traduzida diretamente do alemão para o português. Como é pequeno pude lê-lo
quase todo ali mesmo, mais a introdução da Maria Rita Kehl. Ainda que o livro
seja considerado fácil por especialistas, os leigos que não se iludam, ele é
abundante em expressões e conceitos psicanalíticos que nos farão boiar vez ou
outra. Isso não impede a validade da leitura que poderá trazer-nos um lume
acerca desses sentimentos tristes tão difíceis de serem descritos, nomeados,
classificados e compreendidos. Quantas vezes sentimos uma tristeza inominável,
sem um porquê, sem um objeto?
De mais divertida e fácil apreensão, no entanto, é a
explicação que os homens do período clássico davam ao melancólico, e que Maria
Rita Kehl nos conta em sua nota introdutória. Para eles, o melancólico (que por
vezes se torna maníaco) não carregava um sintoma mas um traço de personalidade
caracterizado por picos alternantes de tristezas e alegrias. Ele também era considerado um homem de gênio, mais propenso à arte
criadora, à imaginação.
A explicação para os diferentes humores era dada pela
coexistência de quatro substâncias no corpo humano: sangue (quente e úmido), fleugma
(frio e úmido), bile amarela (quente e seca) e bile negra (fria e seca). A
prevalência de uma delas sobre as outras marcava a personalidade: sanguínea, fleumática,
colérica ou melancólica. Também os planetas interferiam nessa caracterização. No caso do melancólico, saturno.
sábado, 14 de abril de 2012
Jorge de Burgos e Jorge Luis Borges
Que coisa. Há poucos meses li “O Nome da Rosa” de Umberto Eco. Agora (tentando) ler alguns contos de Jorge Luis Borges: O ALEPH – contos estranhos, eruditos. O grande autor quis escrever para poucos é certo. Quem afinal já encarou Homero e Virgílio? Não muitos ( nem eu!). De todo modo tentamos, com boa vontade, descobrir o mais consagrado dos escritores portenhos e sua afamada literatura fantástica.
Mas não era exatamente desses percalços que gostaria de mencionar, mas apenas uma curiosidade saborosa: a de que o personagem “Jorge de Burgos”,uma das figuras mais marcantes – e sinistras- de “O Nome da Rosa” seria uma homenagem de Umberto Eco a Jorge Luis Borges. Será? Homenagea-lo através da figura de um vilão?
De todo modo, as coincidências são muitas e vão além do prenome: ambos apresentam uma erudição espantosa, foram responsáveis por cuidarem de bibliotecas e perderam gradualmente a visão na velhice. E até a descrição física do personagem assemelha-se à figura real do escritor argentino. Com tantas semelhanças é tentador imaginar que sim, que Umberto Eco inspirou-se em Borges na criação de um dos seus personagens mais famosos. Quem poderia imaginar, ao ler “O Nome da Rosa”, que o escritor argentino estivesse ali?
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