Não ouso definir o amor
, mas contrariar uma idéia presente no discurso cotidiano a respeito dele . Uma idéia ilógica
e vulgar, que por tanto, deforma o sentido vivo de estar sob o estado amoroso,
empobrecendo nossa experiência emocional. Minha motivação partiu de
encontrar-me hoje envolvida em uma conversa entre mulheres bonitas e bem
sucedidas que bem poderiam ser protagonistas
de uma série de televisão à moda “sex and the city”. E então ouço a queixa de uma
delas a respeito de sua ida infrutífera à balada, onde não “pegou” ninguém.
Como dizem por aí ficou no zero a zero. Em
seguida, uma delas é aconselhada a passar um feriado na localidade x e não na y
porque aqui não encontrará quem seja “pegavel”, só gente feia (sabe-se lá
quando se ama quem é feio quem não é?) . Não demora a surgir uma nova queixa: a
de que em determinado lugar os homens eram cerca de cinco anos mais novos que
elas, e por isso, não pegáveis. Por fim, o lamurio final, o de
que o mercado de homens está escasso. Não é pavoroso dizer “mercado de homens”?
No entanto, a expressão é plenamente coerente com o conjunto do discurso
descrito acima. Seria de conseqüência isenta trazer uma palavra própria da
atividade mercantil para definir os percalços do encontro amoroso? É claro que
não.
Essas são falas que
ouvi hoje e não ouvi hoje. Porque levando em conta suas variações, é uma fala revivida, repetida por
outras bocas em outros momentos. Não
cito a fala masculina por aqui não caber e não estar nela envolvida. Mas de modo algum negaria seus vícios, nem sua cruel agressividade. Quem nunca
ouviu as condições (mentirosas) deles para seu próprio objeto amoroso: jovem,
magra, submissa. De todo modo, mover-se
por vingança não pode ser vantajoso. Tampouco por insegurança, ou defesa. A
questão amorosa não pode se valer de estratégia para funcionar.
Aliás, do que se vale o
amor? O incoerente é que tal pergunta não se faz, porque tanto mais se entende
o amor quanto mais se sente, e menos se raciocina sobre ele. Talvez por isso
quem mais o defina é aquele que mais o exprima pela intuição, pela via indireta
do dizer: a poesia, a música, a pintura. O gesto ,o olhar, o pulsar. Por isso é melhor pensá-lo
como um disparo de Cupido, algo súbito que só a fantasia explica.
Pelo amor ser
indeterminado e distante de figuras pré moldadas é que o discurso acima me espanta.
É demasiado utilitarista. Como se buscar um amor não fosse tão diferente de
buscar sucesso ou investimento. Por que a probabilidade de encontrá-lo é maior
aqui e não ali? Como saber previamente quais características nele serão amáveis?
Quem pode dizer quando ou quem amaremos a não ser Cupido?
Há uma certeza moderna de que hoje, a mulher é livre e independente para amar quem quer que seja. Quando na
realidade, ser livre no amor é simplesmente buscá-lo sem ambições de sucesso, é
esperá-lo como se espera a vontade onipotente de um bom deus.
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