segunda-feira, 21 de janeiro de 2013


Não ouso definir o amor , mas contrariar uma idéia presente no discurso  cotidiano a respeito dele . Uma idéia ilógica e vulgar, que por tanto, deforma o sentido vivo de estar sob o estado amoroso, empobrecendo nossa experiência emocional. Minha motivação partiu de encontrar-me hoje envolvida em uma conversa entre mulheres bonitas e bem sucedidas que bem poderiam  ser protagonistas de uma série de televisão à moda “sex and the city”. E então ouço a queixa de uma delas a respeito de sua ida infrutífera à balada, onde não “pegou” ninguém. Como dizem por aí ficou no zero a zero.  Em seguida, uma delas é aconselhada a passar um feriado na localidade x e não na y porque aqui não encontrará quem seja “pegavel”, só gente feia (sabe-se lá quando se ama quem é feio quem não é?) . Não demora a surgir uma nova queixa: a de que em determinado lugar os homens eram cerca de cinco anos mais novos que elas, e por isso, não pegáveis. Por  fim, o lamurio final, o de que o mercado de homens está escasso. Não é pavoroso dizer “mercado de homens”? No entanto, a expressão é plenamente coerente com o conjunto do discurso descrito acima. Seria de conseqüência isenta trazer uma palavra própria da atividade mercantil para definir os percalços do encontro amoroso? É claro que não.
Essas são falas que ouvi hoje e não ouvi hoje. Porque levando em conta suas  variações, é uma fala revivida, repetida por outras bocas em outros momentos.  Não cito a fala masculina por aqui não caber e não estar nela envolvida.  Mas de modo algum negaria seus  vícios, nem sua cruel agressividade. Quem nunca ouviu as condições (mentirosas) deles para seu próprio objeto amoroso: jovem, magra, submissa.  De todo modo, mover-se por vingança não pode ser vantajoso. Tampouco por insegurança, ou defesa. A questão amorosa não pode se valer de estratégia para funcionar.
Aliás, do que se vale o amor? O incoerente é que tal pergunta não se faz, porque tanto mais se entende o amor quanto mais se sente, e menos se raciocina sobre ele. Talvez por isso quem mais o defina é aquele que mais o exprima pela intuição, pela via indireta do dizer: a poesia, a música, a pintura. O gesto ,o  olhar, o pulsar. Por isso é melhor pensá-lo como um disparo de Cupido, algo súbito que só a fantasia explica.
Pelo amor ser indeterminado e distante de figuras pré moldadas é que o discurso acima me espanta. É demasiado utilitarista. Como se buscar um amor não fosse tão diferente de buscar sucesso ou investimento. Por que a probabilidade de encontrá-lo é maior aqui e não ali? Como saber previamente quais características nele serão amáveis? Quem pode dizer quando ou quem amaremos a não ser Cupido?
 Há uma certeza moderna de que hoje, a mulher é livre e independente para amar quem quer que seja. Quando na realidade, ser livre no amor é simplesmente buscá-lo sem ambições de sucesso, é esperá-lo como se espera a vontade onipotente de um bom deus. 

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