terça-feira, 6 de maio de 2014

De Encontro



Era terça-feira, o céu  finalmente estava azul e limpo após três dias cinzentos e molhados.  Helena abriu a janela deixando que uma luz branca invadisse seu quarto e revelasse a brancura dos lençóis embaralhados na cama. Enquanto escovava os dentes sentiu o cheiro de café. Pedro já estava na cozinha, provavelmente lendo o Valor Econômico. Ele fazia questão de acordar um pouco mais cedo e tomar conhecimento das últimas notícias do universo financeiro: os juros, o câmbio e as ações; a recente medida do Banco Central para conter a inflação, o saldo da Balança Comercial, a expectativa do PIB, as últimas fusões empresariais e o boom imobiliário.  Essas informações serviam-lhe não só para aplicar melhor seu dinheiro como para travar longas conversas com outros homens, no trabalho, no futebol e no bar. Helena orgulhava-se desse gosto natural de Pedro, dessa ambição vertiginosa, a qual associava a força e virilidade. Isso era coisa de homem. E foi graças a esse ímpeto que haviam conseguido comprar à vista aquele apartamento que tanto amava.  Eles eram os primeiros moradores de um duplex moderno, de duzentos metros quadrados, com sacada gourmet  e área de lazer equipada com piscina aquecida, academia, quadra de tênis e um salão de festas cuidadosamente estruturado para que não parecesse um  simples salão de festas de um prédio de classe média.         
        Helena maravilha-se com os detalhes tecnológicos daquele empreendimento: o elevador que obedecia a um simples comando de voz e a porta do seu apartamento que abria ao leve toque de seu dedo indicador no painel digital instalado ao lado da maçaneta.  Os equipamentos eletrônicos adquiridos para a mobília eram todos de última geração e das melhores marcas: desde a cafeteira que prometia extrair do grão seu mais precioso aroma até a televisão 3D com home theater. Tudo tão diferente da vida caipira e de classe média baixa que sua mãe havia lhe proporcionado  e que lhe custara tantos momentos de raiva e inveja mal disfarçados.  Como havia odiado aquela casa velha e antiga, repleta de remendos e móveis de mau gosto. Quantas vezes havia se desculpado às amigas pela simplicidade do lugar: “não repare Fulana, minha casa não é chic como a sua...”
        E como detestava a vulgaridade de sua mãe, mulher inculta e divorciada, cujo passatempo no final de semana era ir ao forró com as amigas, quarentonas e solteiras elas também. Como detestava tudo aquilo. Que humilhação e vergonha.  Por isso, a tudo quanto se dedicara na vida, consistira em escapar de igual destino. Sua obsessão era tanta que deixara de lado todos outros possíveis desejos de seu espírito. Na realidade ela mal os conhecia.
Mas nada disso importava de fato. Pois agora era tudo diferente: realizavam viagens ao exterior todo ano, hospedavam-se em hotéis cinco estrelas no Caribe, visitavam vinícolas em Mendoza , faziam cursos de inglês em Londres.  Pedro havia se matriculado em uma degustação semanal de vinhos franceses para que tivesse a mesma familiaridade com a bebida que um natural de Bordeaux.  Helena sentia uma consciente, muito embora oculta, necessidade de mostrar parte do seu sucesso a amigos e familiares. Quase chegara a postar fotos suas em uma rede social, mas sabendo da deselegância que consistia o exibicionismo barato, encontrou meio mais nobre: presenteando amigos e familiares com o que de melhor encontrava, vestindo as  roupas mais caras da última moda.  Além disso, organizava generosos jantares em sua casa, que agora era razão de exibição. Ela era amabilíssima, estava sempre pronta a oferecer favores, em especial aos menos providos. Amava-os com a mesma intensidade que se enraivecia diante dos mais abastados e dos mais cultos. Também possuía a convicção mais íntima de que o altruísmo a faria melhor que seus vizinhos egoístas: aquela detestável classe média paulistana que só se preocupava em ir ao shopping.  Assim, depois de fracassadas tentativas, havia conseguido entrar em uma ONG responsável por crianças carentes. Ali exercia o chamado trabalho voluntário que supostamente nada remunerava, a não ser sua vaidade e sua consciência conflituosa. Era sua função levar os pequeninos aos museus e parques de São Paulo nos finais de semana e em dezembro organizar a campanha de arrecadação dos presentes natalinos. Helena almejava também ser simples. Queria tendo, ser desapegada.
Naquela terça-feira, ela terminou de se maquiar e, apressada, despediu-se de Pedro selando-lhe um beijo cuidadoso para que não estragasse o batom. No elevador apenas disse : “subsolo 1” e o mesmo desceu rumo a garagem. À distância vislumbrou seu carro novo, reluzindo prateado. Ao seu lado, Sandra e Carlos, o casal do apartamento 202 lhe cumprimentou: “Belo carro hein Helena, uma nave!” ao que ela respondeu repleta de pudor: “ahh... não é nada de mais...”. Ligou o motor e arrancou o possante ganhando as ruas, mas não sem antes passar pelas cabines de controle de acesso do seu condomínio, as quais registravam o fluxo de entrada e saída dos moradores por motivos de segurança. Entre indignada e satisfeita refletiu em quão torpes eram aqueles seus vizinhos por darem atenção ao seu carro. Repetia : “aff é só um carro...!” e depois “bando de invejosos!”.  
Uma de suas canções preferidas começou a tocar na rádio, o que fez com que seu pensamento relaxasse. Gostava daquela música não só porque era a música do momento, que não parava de tocar nas academias e nas baladas, mas também porque lhe trazia boas lembranças como a da festa de casamento de sua melhor amiga, em que ela e Pedro haviam sido tão performáticos, tão extraordinariamente divertidos, que quando a banda parou de tocar todos a sua volta bateram palmas e vieram lhe cumprimentar. Por alguns segundos fechou os olhos e cantarolou:

“In the night the stormy night she'll close her eyes
In the night the stormy night away she'd fly
And dreams of
Para-para-paradise”

Um estrondo. Helena abre os olhos: freia. O carro ainda avança alguns metros. Uma menina de sete anos está suspensa no ar. Da sua cabeça, coberta de finíssimos fios castanhos, escorrem gotas de sangue. Sangue da cor do seu pequenino vestido vermelho. Papéis brancos que a menina segurava voam pelo céu. Uma mulher grita na calçada. Helena também grita. É a primeira vez que todos nós ouvimos sua voz de loucura e desespero. Paralisada, ela encosta a cabeça no volante, olha para o chão do carro e chora como nunca antes na vida. Helena berra tão alto que eu ouço aqui do décimo primeiro andar.


sábado, 14 de setembro de 2013

One Art



"The art of losing isn't hard to master; 
so many things seem filled with the intent
 to be lost that their loss is no disaster. 

Lose something every day. Accept the fluster 
of lost door keys, the hour badly spent. 
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster: 
places, and names, and where it was you meant 
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
 next-to-last, of three loved houses went. 
The art of losing isn't hard to master. 

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
 some realms I owned, two rivers, a continent.
 I miss them, but it wasn't a disaster.

—Even losing you (the joking voice, a gesture 
I love) I shan't have lied. It's evident
 the art of losing's not too hard to master
 though it may look like (Write it!) like disaster"

Elizabeth Bishop

sexta-feira, 6 de setembro de 2013



Aquiles enfrentou seu luto por  Patroclo sujando suas mãos de sangue.  Atravessou sua própria dor pela brutalidade da guerra , pelo assassinato de Heitor, pela loucura da morte e do ódio cego.  Mais sorte ele possui,  por poder dar destino heróico e sentido à insensatez dos acontecimentos da vida. Ainda que, para isso, não tardasse a chegar o castigo dos deuses e, desse fato, a tragédia.  Porém , mais trágica que a própria tragédia é a pequeneza de espírito. Pois pobre daquele que perde seu melhor amigo para o egoísmo, o tédio , o orgulho e a vaidade.  O ato heróico é inseparável de um inimigo nobre, cujo rosto se vê. Então , o que se faz com um vilão cujo espectro é o rosto difuso da mediocridade? Antecipa-se a desistência. E louva-se a letargia: apenas morre-se aos poucos.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013



Engana-se quem pensa que a morte é tão somente o cessar das nossas funções vitais. A morte é o tempo que nos transforma em outro com seu andar. Tenho saudades de quem eu era , das minhas ilusões. Lá eu vivia feliz, como um bobo alegre que faz corte ao rei e a ele se entrega por completo. Ai bufão que eu era: sorridente e tagarela.  Cego  em meus devaneios, na redoma calorosa da bondade e do sonho.  E aquele narcisismo acrítico então...só deixou boas lembranças!  Eu que , não vendo vaidades em mim,  tampouco as via no outro, podendo amá-lo mais sinceramente...
Mas a foice do tempo e da morte me espreitou matando quem eu era. E agora lamentar é como gritar ao vento.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013


                                                                                                                                                                                                                  
A gente aprende que ser herói é fazer grandes feitos, ser o primeiro colocado, vencer, prender bandidos, salvar inocentes. Quando na verdade, ser herói é simplesmente salvar a si mesmo.  É acordar todo dia de manhã para trabalhar, ainda que seja um trabalho chato, entediante ou sem sentido e dar a ele algum sentido. Realizá-lo bem porque é preciso. É preciso por respeito a si próprio, para que seu tempo ao menos tenha sido utilizado de forma minimamente digna.  Já que somos obrigados a trabalhar, por necessidade, que de alguma forma seja um trabalho apreciável, que nele contenha sinais de talento, esmero ou perfeição. Se fossemos outro e nos observássemos à distância, o que veríamos então? Gostaríamos? É não deixar ser contaminado pelo “monstrinho” da preguiça, da mediocridade. Além disso, é tentar ser um pouquinho menos ignorante todos os dias, um pouquinho mais generoso em um sistema econômico que estimula tanto a competitividade e o individualismo. É fazer sempre um exercício de humanidade e humildade e perceber  nossas fraquezas, que muitas vezes são as fraquezas de todos nós, fraquezas humanas: inveja, covardia, medo, soberba,  vaidade, orgulho...e tentar contornar isso tudo, através de um ato diário de força contra o que há de mais vulgar e grotesco dentro de nós mesmos.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O encontro


Ali estão os dois sentados, na mesa do café do shopping. Ele toma café preto, ela capuccino. Você não os vê? Venha mais a direita, agora sim! Olhe, aquele é o Rafa, veja como ele sabe sorrir de forma amena, possui a voz suave e estilo despojado, barba mal feita e tênis all star. Há-há! Não é típico? Aquela ali é a Paty que,  ao contrário, preocupou-se em se arrumar dentro de um padrão mais básico: salto, maquiagem e jeans. Sim! Ela é bonita... não se anime ainda, é cedo. Continuemos observando (aparentemente chegaram há pouco) .

.... eu não vou condená-la; ela veio me dizer aquilo a respeito do Jorge, achando que ficaria contra ele e a verdade, Paty,  é que não ficarei do lado de nenhum dos dois. Está certíssimo, não vale a pena, você sabe né, que os dois têm suas razões, ninguém é perfeito. É claro que sei , por isso mesmo! Ele possui um gênio difícil e ela.... ai.. eu sei Paty, vai parecer maldade, não  me leve a mal, você sabe melhor do que ninguém  que não sou disso... mas a verdade é que ela precisa arrumar logo um namorado, anda  tão cinza,  amargurada, você não acha? Eu não queria falar mas já que você falou! Tá na cara que é isso , por trás daquele ar de independência há muita frustração, eu sei que há...

Ei meu chapa! Esta escutando? Claro que sim, e por que você me trouxe aqui? é só para ouvi-los brother , só isso. Hmmm então me diga,  qual  a razão dos dois se encontrarem?  Eles são amigos de longa data,  não se veem há, provavelmente, anos;  Amigos? Isso, amigos de faculdade, eu chequei antes de sair de casa, estudaram juntos  ! Ah malandro, agora não é hora para ironias,  você entendeu.  Voltemos nossa atenção a eles.

....o Rodrigo me ligou semana passada, ele anda tão materialista Rafa, precisa ver, só fala de dinheiro . Está cada vez mais vazio, chato , superficial; sabe aquela pessoa que não pensa em alimentar o espírito só o bolso. Quando eu disse para ele aproveitar  já que está ganhando bem e fazer umas viagens , curtir a vida, sabe o que ele me respondeu? Que preferia guardar e aplicar o dinheiro no mercado de ações.  Ai que pobreza de espírito Paty! Se fosse nós  já estaríamos  de mochila nas costas, conhecendo o mundo . Deus dá asas a quem não sabe voar.  Também acho,  não sou tão consumista, tenho amigas que entram em uma loja e saem com quatro sapatos  e nem preciso dizer que parcelado haha.  Eu hein! meu dinheiro vai todo para viagem, isso sim fica para a vida toda.....

Olha... já  estão se levantando. Quanto tempo ficaram conversando? Talvez uma hora? Espera , ainda tem o derradeiro abraço, a despedida calorosa ! Escute!

Paty, queridona ! foi tão bom conversar com você , saudade danada da sua risada gostosa. E continua linda, felizardo é o Carlinhos hein! Quando virão os filhos? Não sei querido, primeiro estabilidade financeira, você viu o preço das escolas , dos imóveis? só sei quem será o padrinho, meu grande amigo aqui! Não vamos mais ficar tanto tempo sem nos ver assim querido, você faz tanta falta, fiquei tão feliz em saber mais de você.  Eu também Paty, quero ter sempre notícias suas, eu sei que a vida é corrida mas não suma. Ah.. depois envio as fotos pela internet. Já sinto saudades ! Tchau meu lindo. Tchau.

E então camarada? Que tal ? Para mim basta. Para mim também; é o suficiente. E o que faremos? Estou na dúvida se uma bomba ou uma tese. Talvez seja melhor um conto. Eu prefiro simplesmente ir ali e tomar um milk shake.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013


Não ouso definir o amor , mas contrariar uma idéia presente no discurso  cotidiano a respeito dele . Uma idéia ilógica e vulgar, que por tanto, deforma o sentido vivo de estar sob o estado amoroso, empobrecendo nossa experiência emocional. Minha motivação partiu de encontrar-me hoje envolvida em uma conversa entre mulheres bonitas e bem sucedidas que bem poderiam  ser protagonistas de uma série de televisão à moda “sex and the city”. E então ouço a queixa de uma delas a respeito de sua ida infrutífera à balada, onde não “pegou” ninguém. Como dizem por aí ficou no zero a zero.  Em seguida, uma delas é aconselhada a passar um feriado na localidade x e não na y porque aqui não encontrará quem seja “pegavel”, só gente feia (sabe-se lá quando se ama quem é feio quem não é?) . Não demora a surgir uma nova queixa: a de que em determinado lugar os homens eram cerca de cinco anos mais novos que elas, e por isso, não pegáveis. Por  fim, o lamurio final, o de que o mercado de homens está escasso. Não é pavoroso dizer “mercado de homens”? No entanto, a expressão é plenamente coerente com o conjunto do discurso descrito acima. Seria de conseqüência isenta trazer uma palavra própria da atividade mercantil para definir os percalços do encontro amoroso? É claro que não.
Essas são falas que ouvi hoje e não ouvi hoje. Porque levando em conta suas  variações, é uma fala revivida, repetida por outras bocas em outros momentos.  Não cito a fala masculina por aqui não caber e não estar nela envolvida.  Mas de modo algum negaria seus  vícios, nem sua cruel agressividade. Quem nunca ouviu as condições (mentirosas) deles para seu próprio objeto amoroso: jovem, magra, submissa.  De todo modo, mover-se por vingança não pode ser vantajoso. Tampouco por insegurança, ou defesa. A questão amorosa não pode se valer de estratégia para funcionar.
Aliás, do que se vale o amor? O incoerente é que tal pergunta não se faz, porque tanto mais se entende o amor quanto mais se sente, e menos se raciocina sobre ele. Talvez por isso quem mais o defina é aquele que mais o exprima pela intuição, pela via indireta do dizer: a poesia, a música, a pintura. O gesto ,o  olhar, o pulsar. Por isso é melhor pensá-lo como um disparo de Cupido, algo súbito que só a fantasia explica.
Pelo amor ser indeterminado e distante de figuras pré moldadas é que o discurso acima me espanta. É demasiado utilitarista. Como se buscar um amor não fosse tão diferente de buscar sucesso ou investimento. Por que a probabilidade de encontrá-lo é maior aqui e não ali? Como saber previamente quais características nele serão amáveis? Quem pode dizer quando ou quem amaremos a não ser Cupido?
 Há uma certeza moderna de que hoje, a mulher é livre e independente para amar quem quer que seja. Quando na realidade, ser livre no amor é simplesmente buscá-lo sem ambições de sucesso, é esperá-lo como se espera a vontade onipotente de um bom deus. 

terça-feira, 3 de julho de 2012


Pudera ter sonhos, febril
Pudera ter artes, querelas
Pudera ser forte gentio
Pudera ser outro pudera

Quem sabe nadar pelos rios
Quem sabe corrê-los a vela
Pudera ser nobre gentil
E quereria então a donzela

Pudera tecer outros fios
Pudera esquecer tais mazelas
Pudera ser outro, sadio
Um outro em mim prepondera



segunda-feira, 4 de junho de 2012

quinta-feira, 10 de maio de 2012


terça-feira, 24 de abril de 2012



Ontem estive na livraria e deparei-me com um livro de Freud, Luto e Melancolia, uma edição (como sempre) bela da Cosac Naif, traduzida diretamente do alemão para o português. Como é pequeno pude lê-lo quase todo ali mesmo, mais a introdução da Maria Rita Kehl. Ainda que o livro seja considerado fácil por especialistas, os leigos que não se iludam, ele é abundante em expressões e conceitos psicanalíticos que nos farão boiar vez ou outra. Isso não impede a validade da leitura que poderá trazer-nos um lume acerca desses sentimentos tristes tão difíceis de serem descritos, nomeados, classificados e compreendidos. Quantas vezes sentimos uma tristeza inominável, sem um porquê, sem um objeto?
De mais divertida e fácil apreensão, no entanto, é a explicação que os homens do período clássico davam ao melancólico, e que Maria Rita Kehl nos conta em sua nota introdutória. Para eles, o melancólico (que por vezes se torna maníaco) não carregava um sintoma mas um traço de personalidade caracterizado por picos alternantes de tristezas e alegrias.  Ele também era considerado um homem de gênio, mais propenso à arte criadora, à imaginação.
A explicação para os diferentes humores era dada pela coexistência de quatro substâncias no corpo humano: sangue (quente e úmido), fleugma (frio e úmido), bile amarela (quente e seca) e bile negra (fria e seca). A prevalência de uma delas sobre as outras marcava a personalidade: sanguínea, fleumática, colérica ou melancólica. Também os planetas interferiam nessa caracterização. No caso do melancólico, saturno.



sábado, 14 de abril de 2012

Jorge de Burgos e Jorge Luis Borges

Que coisa. Há poucos meses li “O Nome da Rosa” de Umberto Eco. Agora (tentando) ler alguns contos de Jorge Luis Borges: O ALEPH – contos estranhos, eruditos. O grande autor quis escrever para poucos é certo. Quem afinal já encarou Homero e Virgílio? Não muitos ( nem eu!). De todo modo tentamos, com boa vontade, descobrir o mais consagrado dos escritores portenhos e sua afamada literatura fantástica.
Mas não era exatamente desses percalços que gostaria de mencionar, mas apenas uma curiosidade saborosa: a de que o personagem “Jorge de Burgos”,uma das figuras mais marcantes – e sinistras- de “O Nome da Rosa” seria uma homenagem de Umberto Eco a Jorge Luis Borges. Será? Homenagea-lo através da figura de um vilão?
De todo modo, as coincidências são muitas e vão além do prenome: ambos apresentam uma erudição espantosa, foram responsáveis por cuidarem de bibliotecas e perderam gradualmente a visão na velhice. E até a descrição física do personagem assemelha-se à figura real do escritor argentino. Com tantas semelhanças é tentador imaginar que sim, que Umberto Eco inspirou-se em Borges na criação de um dos seus personagens mais famosos. Quem poderia imaginar, ao ler “O Nome da Rosa”, que o escritor argentino estivesse ali?

terça-feira, 13 de março de 2012

Do que disse a Jorge

Disse a Jorge que a origem do sacrifício não era primariamente generosa. Ele certamente refutou, enquanto comíamos batatas fritas em uma lanchonete no centro da cidade. Recriminou-me, antes de tudo, por sua inclinação religiosa (embora não admitisse). Como poderia ser diferente se admirava São Francisco de Assis e todos os mártires católicos. Mais que isso, Jorge admirava todos os mártires e desejava ele mesmo ser um mártir.
Calçava naquele dia o velho sapato de couro que eu havia lhe dado há tantos anos, no único natal em que estivemos juntos. Naquele natal em que ele, longe da família, e eu, sem família, fomos quase que impelidos forçosamente um ao outro.
Vestia também uma de suas inúmeras camisetas Hering branca e afundava-me, como já era costume, uns olhos tristes e misericordiosos que não mais me incomodavam. Deles inclusive aprendera a gostar porque aparentavam distinção, só Jorge era capaz de carrega-los assim, pesados, cheios de força. O segredo de amá-lo tanto era esse olhar úmido?
Jorge, seus olhos estão lacrimosos de novo. Ele sorria, afagava minha mão e sorria. Eu sentia que ele era o único que poderia compreender-me a ponto de não sentir-me só. Jorge milagrosamente existia e discutíamos bobamente sobre o sacrifício que uns fazem durante suas vidas:
Antes de o fazerem exclusivamente para o bem do outro, numa ação genuinamente altruísta e doadora, o fazem para sua própria salvação, a fim de aplacar o cotidiano vazio de ideais da modernidade. Para que possam contemplar nos seus dias um ato de concretude, de realização. Não é fácil atravessar seus dias percebendo-os inócuos. Vê Catarina. Ao deixar de viver somente para si e ajudar o tio enfermo, foi mais capaz de suportar (e até com espantosa vivacidade), sua rotina desumanizadora de trabalho. E desde então, por saber que lhe faz bem, deu de ajudar a todos, como uma Madre Tereza de Calcutá. E é como se a todos amasse agora. Não sei bem. De todo modo se a causa é egoísta, a consequência é de natureza oposta, razão pela qual a ação como um todo se faz admirável. Pouco importa o tema do “grande sacrifício”, pode ser um filho, uma arte ou toda a humanidade e desde que haja um, será possível uma espécie de alegria. É o caso dos que buscam hoje preservar o meio ambiente. Preservam, contudo, a si mesmos, afastando-se das angústias e problemas sociais a que estão, eles próprios, submetidos. 
Depois de um pouco de silêncio, Jorge balançou a cabeça relutante, inclinou-se para mais perto de mim, apertou meus dedos calorosamente e disse, não Clarisse, se um se move na direção do outro para ajudá-lo é por amor, e tão somente.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sobre o ato de ler


O escritor israelense Amos Oz, ao ser perguntado a respeito do leitor ideal, no programa de televisão Roda Viva, respondeu que, para ele, o bom leitor seria aquele que não buscasse no livro o autor (ou, em outras palavras, que quisesse através do livro descobrir o escritor) e sim aquele que deparasse consigo mesmo nas páginas da história, que fosse capaz de identificar algo seu ali, reconhecer-se na obra. As palavras exatas me falham a memória, mas não o sentido geral delas, o qual gravei e vez ou outra me salta à lembrança. Agrada-me a posição ativa dessa definição de “bom leitor”, como sujeito capaz não tanto de captar informações mas de incorporar-se ao livro (e deixar , desse modo, que o livro se mescle à sua vida – transformando-a talvez?).
Já me peguei em um pequeno imbróglio filosófico, fazendo-me a seguinte pergunta, de caráter utilitarista: se é tempo demasiado perdido o que se gasta lendo, silenciosa e só enquanto um mundo de produção e movimento me espreita da janela. Depois reflito que esse “viver mais” pode não significar viver melhor e que a imaginação literária, aquilo que não existe, pode ser exatamente a mais rica fonte de vida e sentido da realidade. 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Um Homem Subterrâneo

Devia era de estar aborrecido, crendo a vida lugar de poucas satisfações para ter feito o que fez. Ou pegou nojo de realidade, quem sabe?
O fato é que meu pai se emburacou para nunca mais voltar. Deu que no dia dezesseis, acordou emburrado, de olhos longos e fundos, cheio de remelas por cara não lavar e saiu para a rua como de costume, oito em ponto, com maleta cheia de livros de histórias. Depois voltou jamais, nunca mais o soube de vista, só de ouvidos. E falaram que ele quis viver feito minhocuçu, aterrado em subsolo da grande cidade.  É o que se conta. Vi eu não vi, mas não duvido nem nego. Bem capaz, é o que digo, se me perguntam.
Sei que ele era homem de letras e que seu maior divertimento era essa coisa tola de ler sentado no metrô. Ele me dizia que detestava quando o destino se achegava porque deveria interromper a leitura, subir as escadas e voltar à quentura do sol, para suar que nem cão sujo e empertigar-se de tanta crueza e chatice de vida. Quando víamos juntos as celebridades na televisão ou alguma alma empinada de si pelas calçadas, ele se ria dizendo que a nobreza de hoje é senão uma piada, que se existiu nobre um dia foi aquele do já existido em Idade Média, de castelos e reis maiores. Dizia a mim que não me molestasse correndo atrás de todas essas coisas vãs da publicidade, nem esse status de se ter, satisfações pequenas, frutos da incompetência de se criar algo seu, de valor. Todas essas porcarias, meu filho, meu pequeno José, nada fornecem ao seu coração de menino, a não ser pequeneza de homem fraco. Se quer ser valente, brioso, tem de se aventurar por algo que lhe queime o corpo, por desafios grandes e por um belo pensar. Há de buscar o amor que não seja o comprado nem o vulgar e produzir uma arte ou um intento que seja só seu. E deve olhar para o outro para muito ajudar, que olhar só para si é canalhice de gente endemoniada. Ele , meu pai, não queria saber dessas coisas práticas da modernidade e a mim passou essa visão cética de só querer o necessário de comer e morar. Ensinou-me também a orar.
Meu amigo Carlos, que freqüentava meus lares, dizia que meu pai era somente um doidivanas. Eu nem confirmava nem desmentia, dizia apenas, bem capaz Carlos. E que seu destino não podia ser outro senão o da loucura insana, insanidades. É o que todos pensam hoje, que até documentário na televisão passou, sobre homem que morreu velho no metrô, que ali sentou com muitos livros lendo sem parar, só saindo do vagão para cagar, tomar água e comer doces sortidos que eram vendidos em uma ou outra parada. Depois retornava ao vagão a ler infinito por destinos múltiplos que jamais chegavam, a não ser o da morte um dia, sua última estação. Eu nunca liguei para tais dizeres, de pessoas impressionáveis que a tudo choca, que só saudade do meu pai eu tenho, ele que me ensinou a não ter tais espécies escrupulosas de vergonhas. Quase vergonha nenhuma, dele apreendi.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Olhar alheioso

A gente faz um esforço para que gostem da gente 
(Estamos tementes de rejeição?)
O olho do outro nos olha de esguelha, ressabiado
Que olho é esse? Contrariado?
Olho o olho do outro
Eu alho, eu óleo, eu olho
Oleoso de tanto olhar, besuntado de olho
Eu acho e suponho um impreciso não sei
No movediço olheoso de não se olhar
Alheio de si
Alheioso está

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011


Amanheci remoendo o que havia sonhado. Ou não havia sonhado?  Um homem que cantava rap como um contralto. Um negro suntuoso, de barbas grossas e voz cheia de mágoa. Cantava tão grosso, tão cheio de dor e ferida aberta. Cantava por toda esta cidade triste e vazia que já não sabe o por quê do seu oco impuro de nada, nem dos seus gastos extraordinários: comilanças, pujanças, desvarios de criança mimada. Sabe menos ainda de você Homem Negro, da sua fome, que é só tardança e graça de fazer a fome passar. Nem sabe do amém jurado que dá sua voz quando bala voa e passa longe do seu peito. Todo esse seu risco de vivência, quem sabe? E do seu perambular de abutre: fétido colhedor de carnes.
E eu? Endoideci Homem Negro? Adoeci? Quero que me diga. Diga! Você veio como um deus que sobe por debaixo da terra, viril. Tentei evitá-lo pelo vidro fumê, pelas vitrinas dos shoppings centers, pela minha solidão.  E já não mais. Veio enquanto dormia empertigando-me, enforcando meu coração a gritos e invocando-me para sua guerra crua (queria tanto que fosse só sua). Sua só. Deixo a infância para trás agora que o vejo duro, bruto, gemendo forte. Olho para seu rosto rasgado de vida puída, que é senão o meu rosto de vida doida também. Somos um só rosto de homem pardo: eu sou crioulo. Seus dentes podres, sua infecção e seu cobertor de pulgas são corpos da minha alma doente de classe média culpada. Eu sou. Quero salvar-me da vida vulgar que levo quando ignoro-o ( todos que o ignoram são vulgares). Você insistiu que o visse na bruma da noite enquanto eu dormitava tranqüila (tranqüila?). Agora, de olhos abertos, encontro-o de novo e de novo em tudo: nas ruelas baixas, nos prédios altos, nas coberturas e nos shows de jazz. O restaurante fino, no qual tanto me divertia já nem faz sentido, nem minhas bolsas, meus perfumes. Que se dane tudo isso negro magoado, negro favelado de fome. Homem forte. Você que roubava minha carteira e meus aparelhos eletrônicos. Agora é tanto pior que já rouba meu sono. Por isso não lhe dou esmolas nem rezo mais, que a missa não me expia. Você me espia enquanto durmo, me vigia. Você com seu grito desgraçado me diz que sou desgraçada também, sou sua favela. Eu, no décimo sexto andar sou o morro e o pontilhão, o viaduto. Encontro-o Homem Negro, onipresente: na lua bege, no chão cinza de São Paulo, no céu cinza de São Paulo, nas caras cinzas de todas as pessoas cinzas desta cidade. E não sinto piedade alguma. É raiva de soldado incauto.  É tanta raiva.




“E então Fritz me contou que o que lhe permitiu resistir durante os quase três anos no campo de prisioneiros no Arizona foi a autorização de ler livros: ele passou aqueles anos lendo e relendo os clássicos americanos e ingleses. E eu lhe contei que o que me salvou quando eu era estudante no Arizona, à espera de crescer, à espera da hora de fugir para uma realidade mais ampla, foi ler livros traduzidos e também livros originalmente em inglês.
Ter acesso à literatura, à literatura do mundo, era escapar da prisão da futilidade nacional, da vulgaridade, do provincianismo compulsório, do ensino vazio, dos destinos imperfeitos e da má sorte. A literatura era o passaporte para entrar numa vida mais ampla; ou seja, a região da liberdade.
Literatura era liberdade. Sobretudo numa época em que os valores da leitura e da introspecção são tenazmente contestados, a literatura é liberdade.”  
  
Susan Sontag em "Literatura é Liberdade"  - Discurso ao receber o prêmio Friedenspreis

sábado, 10 de dezembro de 2011

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Pão de açúcar: lugar de gente feliz

É provável que uma porcentagem bem alta de brasileiros já tenha presenciado ou participado de práticas racistas ao longo da vida. É provável também que a maior parte deles nem se dêem conta disso. Recentemente, enquanto fazia compras em uma unidade da rede de supermercados Pão de Açúcar, ouvi (a contragosto é verdade) um diálogo de teor racista e particularmente desagradável. Minha aversão resultou não só do conteúdo deplorável, como também do tom ameno e alegre com que a conversa se desenrolou, em meio a uma degustação promocional de vinho. A violência, quando acompanhada de alegria e descontração se torna ainda mais grotesca porque evidencia o júbilo do agressor. Stanley Kubrick choca tanto em Laranja Mecânica porque mostra exatamente essa espécie de comportamento. Afinal, quem esquecerá a cena de Alexander DeLarge espancando e cantando Singin` in the Rain ?
Não creio, é claro, que os interlocutores em questão tenham sentido o prazer maligno do personagem de Kubrick. No entanto, o assunto racista da conversa (pesado) foi recebido tão naturalmente a ponto de ser incapaz de perturbar a atmosfera leve dos sorrisos e das amabilidades, a brandura. As  protagonistas, duas mulheres – uma cliente idosa e outra funcionária jovem – revelam o aspecto difuso do preconceito, que não se restringe a uma determinada classe ou geração.
O diálogo que ouvi não é um caso isolado. Sua insensibilidade mostra a face perversa do Brasil racista. Mostra também o quão prejudicial se torna um problema social quando o mesmo é negado, disfarçado através de palavras eufêmicas como “gente de cor”, “colaborador” (trabalhadores braçais da indústria), “secretária do lar”( empregadas domésticas) , expressões tão em voga e que vieram a calhar com o sentimento conflituoso de culpa e egoísmo das classes média e alta brasileiras. Eufemismos que reforçam o estado letárgico e conformista das suas vítimas.
O cuidado com as palavras é importante. Não acredito que ações e atitudes democráticas, o respeito e a civilidade em uma sociedade, possam surgir sem que passem antes pela linguagem (ou pensamento).
A palavra escrita tem um poder maior de nos fazer refletir e trazer à tona o absurdo do real. Assim, transcrevo o que ouvi na tentativa de evidenciar o grotesco que o cotidiano pretende sempre ocultar.

                                                                               ***
Funcionária: uma vez namorei um homem “de cor” e minha mãe não gostou.
Senhora: ah ela ia gostar da minha terra, lá no sul. Só tem gente branquinha.
Funcionária: é que somos descendentes de portugueses.
Senhora: é, português não gosta mesmo. Mas agora as moças estão melhorando com essa coisa de alisar o cabelo.
Funcionária: as mulheres não gostam tanto dos homens, mas o estranho é que eles adoram uma mulata né...
Senhora: sabe o que é menina? É que quando os portugueses vieram ao Brasil só tinha mulata e índia. Aí tiveram que ficar com elas mesmo, não tiveram opção.

                                                                               ***