terça-feira, 13 de março de 2012

Do que disse a Jorge

Disse a Jorge que a origem do sacrifício não era primariamente generosa. Ele certamente refutou, enquanto comíamos batatas fritas em uma lanchonete no centro da cidade. Recriminou-me, antes de tudo, por sua inclinação religiosa (embora não admitisse). Como poderia ser diferente se admirava São Francisco de Assis e todos os mártires católicos. Mais que isso, Jorge admirava todos os mártires e desejava ele mesmo ser um mártir.
Calçava naquele dia o velho sapato de couro que eu havia lhe dado há tantos anos, no único natal em que estivemos juntos. Naquele natal em que ele, longe da família, e eu, sem família, fomos quase que impelidos forçosamente um ao outro.
Vestia também uma de suas inúmeras camisetas Hering branca e afundava-me, como já era costume, uns olhos tristes e misericordiosos que não mais me incomodavam. Deles inclusive aprendera a gostar porque aparentavam distinção, só Jorge era capaz de carrega-los assim, pesados, cheios de força. O segredo de amá-lo tanto era esse olhar úmido?
Jorge, seus olhos estão lacrimosos de novo. Ele sorria, afagava minha mão e sorria. Eu sentia que ele era o único que poderia compreender-me a ponto de não sentir-me só. Jorge milagrosamente existia e discutíamos bobamente sobre o sacrifício que uns fazem durante suas vidas:
Antes de o fazerem exclusivamente para o bem do outro, numa ação genuinamente altruísta e doadora, o fazem para sua própria salvação, a fim de aplacar o cotidiano vazio de ideais da modernidade. Para que possam contemplar nos seus dias um ato de concretude, de realização. Não é fácil atravessar seus dias percebendo-os inócuos. Vê Catarina. Ao deixar de viver somente para si e ajudar o tio enfermo, foi mais capaz de suportar (e até com espantosa vivacidade), sua rotina desumanizadora de trabalho. E desde então, por saber que lhe faz bem, deu de ajudar a todos, como uma Madre Tereza de Calcutá. E é como se a todos amasse agora. Não sei bem. De todo modo se a causa é egoísta, a consequência é de natureza oposta, razão pela qual a ação como um todo se faz admirável. Pouco importa o tema do “grande sacrifício”, pode ser um filho, uma arte ou toda a humanidade e desde que haja um, será possível uma espécie de alegria. É o caso dos que buscam hoje preservar o meio ambiente. Preservam, contudo, a si mesmos, afastando-se das angústias e problemas sociais a que estão, eles próprios, submetidos. 
Depois de um pouco de silêncio, Jorge balançou a cabeça relutante, inclinou-se para mais perto de mim, apertou meus dedos calorosamente e disse, não Clarisse, se um se move na direção do outro para ajudá-lo é por amor, e tão somente.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sobre o ato de ler


O escritor israelense Amos Oz, ao ser perguntado a respeito do leitor ideal, no programa de televisão Roda Viva, respondeu que, para ele, o bom leitor seria aquele que não buscasse no livro o autor (ou, em outras palavras, que quisesse através do livro descobrir o escritor) e sim aquele que deparasse consigo mesmo nas páginas da história, que fosse capaz de identificar algo seu ali, reconhecer-se na obra. As palavras exatas me falham a memória, mas não o sentido geral delas, o qual gravei e vez ou outra me salta à lembrança. Agrada-me a posição ativa dessa definição de “bom leitor”, como sujeito capaz não tanto de captar informações mas de incorporar-se ao livro (e deixar , desse modo, que o livro se mescle à sua vida – transformando-a talvez?).
Já me peguei em um pequeno imbróglio filosófico, fazendo-me a seguinte pergunta, de caráter utilitarista: se é tempo demasiado perdido o que se gasta lendo, silenciosa e só enquanto um mundo de produção e movimento me espreita da janela. Depois reflito que esse “viver mais” pode não significar viver melhor e que a imaginação literária, aquilo que não existe, pode ser exatamente a mais rica fonte de vida e sentido da realidade. 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Um Homem Subterrâneo

Devia era de estar aborrecido, crendo a vida lugar de poucas satisfações para ter feito o que fez. Ou pegou nojo de realidade, quem sabe?
O fato é que meu pai se emburacou para nunca mais voltar. Deu que no dia dezesseis, acordou emburrado, de olhos longos e fundos, cheio de remelas por cara não lavar e saiu para a rua como de costume, oito em ponto, com maleta cheia de livros de histórias. Depois voltou jamais, nunca mais o soube de vista, só de ouvidos. E falaram que ele quis viver feito minhocuçu, aterrado em subsolo da grande cidade.  É o que se conta. Vi eu não vi, mas não duvido nem nego. Bem capaz, é o que digo, se me perguntam.
Sei que ele era homem de letras e que seu maior divertimento era essa coisa tola de ler sentado no metrô. Ele me dizia que detestava quando o destino se achegava porque deveria interromper a leitura, subir as escadas e voltar à quentura do sol, para suar que nem cão sujo e empertigar-se de tanta crueza e chatice de vida. Quando víamos juntos as celebridades na televisão ou alguma alma empinada de si pelas calçadas, ele se ria dizendo que a nobreza de hoje é senão uma piada, que se existiu nobre um dia foi aquele do já existido em Idade Média, de castelos e reis maiores. Dizia a mim que não me molestasse correndo atrás de todas essas coisas vãs da publicidade, nem esse status de se ter, satisfações pequenas, frutos da incompetência de se criar algo seu, de valor. Todas essas porcarias, meu filho, meu pequeno José, nada fornecem ao seu coração de menino, a não ser pequeneza de homem fraco. Se quer ser valente, brioso, tem de se aventurar por algo que lhe queime o corpo, por desafios grandes e por um belo pensar. Há de buscar o amor que não seja o comprado nem o vulgar e produzir uma arte ou um intento que seja só seu. E deve olhar para o outro para muito ajudar, que olhar só para si é canalhice de gente endemoniada. Ele , meu pai, não queria saber dessas coisas práticas da modernidade e a mim passou essa visão cética de só querer o necessário de comer e morar. Ensinou-me também a orar.
Meu amigo Carlos, que freqüentava meus lares, dizia que meu pai era somente um doidivanas. Eu nem confirmava nem desmentia, dizia apenas, bem capaz Carlos. E que seu destino não podia ser outro senão o da loucura insana, insanidades. É o que todos pensam hoje, que até documentário na televisão passou, sobre homem que morreu velho no metrô, que ali sentou com muitos livros lendo sem parar, só saindo do vagão para cagar, tomar água e comer doces sortidos que eram vendidos em uma ou outra parada. Depois retornava ao vagão a ler infinito por destinos múltiplos que jamais chegavam, a não ser o da morte um dia, sua última estação. Eu nunca liguei para tais dizeres, de pessoas impressionáveis que a tudo choca, que só saudade do meu pai eu tenho, ele que me ensinou a não ter tais espécies escrupulosas de vergonhas. Quase vergonha nenhuma, dele apreendi.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Olhar alheioso

A gente faz um esforço para que gostem da gente 
(Estamos tementes de rejeição?)
O olho do outro nos olha de esguelha, ressabiado
Que olho é esse? Contrariado?
Olho o olho do outro
Eu alho, eu óleo, eu olho
Oleoso de tanto olhar, besuntado de olho
Eu acho e suponho um impreciso não sei
No movediço olheoso de não se olhar
Alheio de si
Alheioso está

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011


Amanheci remoendo o que havia sonhado. Ou não havia sonhado?  Um homem que cantava rap como um contralto. Um negro suntuoso, de barbas grossas e voz cheia de mágoa. Cantava tão grosso, tão cheio de dor e ferida aberta. Cantava por toda esta cidade triste e vazia que já não sabe o por quê do seu oco impuro de nada, nem dos seus gastos extraordinários: comilanças, pujanças, desvarios de criança mimada. Sabe menos ainda de você Homem Negro, da sua fome, que é só tardança e graça de fazer a fome passar. Nem sabe do amém jurado que dá sua voz quando bala voa e passa longe do seu peito. Todo esse seu risco de vivência, quem sabe? E do seu perambular de abutre: fétido colhedor de carnes.
E eu? Endoideci Homem Negro? Adoeci? Quero que me diga. Diga! Você veio como um deus que sobe por debaixo da terra, viril. Tentei evitá-lo pelo vidro fumê, pelas vitrinas dos shoppings centers, pela minha solidão.  E já não mais. Veio enquanto dormia empertigando-me, enforcando meu coração a gritos e invocando-me para sua guerra crua (queria tanto que fosse só sua). Sua só. Deixo a infância para trás agora que o vejo duro, bruto, gemendo forte. Olho para seu rosto rasgado de vida puída, que é senão o meu rosto de vida doida também. Somos um só rosto de homem pardo: eu sou crioulo. Seus dentes podres, sua infecção e seu cobertor de pulgas são corpos da minha alma doente de classe média culpada. Eu sou. Quero salvar-me da vida vulgar que levo quando ignoro-o ( todos que o ignoram são vulgares). Você insistiu que o visse na bruma da noite enquanto eu dormitava tranqüila (tranqüila?). Agora, de olhos abertos, encontro-o de novo e de novo em tudo: nas ruelas baixas, nos prédios altos, nas coberturas e nos shows de jazz. O restaurante fino, no qual tanto me divertia já nem faz sentido, nem minhas bolsas, meus perfumes. Que se dane tudo isso negro magoado, negro favelado de fome. Homem forte. Você que roubava minha carteira e meus aparelhos eletrônicos. Agora é tanto pior que já rouba meu sono. Por isso não lhe dou esmolas nem rezo mais, que a missa não me expia. Você me espia enquanto durmo, me vigia. Você com seu grito desgraçado me diz que sou desgraçada também, sou sua favela. Eu, no décimo sexto andar sou o morro e o pontilhão, o viaduto. Encontro-o Homem Negro, onipresente: na lua bege, no chão cinza de São Paulo, no céu cinza de São Paulo, nas caras cinzas de todas as pessoas cinzas desta cidade. E não sinto piedade alguma. É raiva de soldado incauto.  É tanta raiva.




“E então Fritz me contou que o que lhe permitiu resistir durante os quase três anos no campo de prisioneiros no Arizona foi a autorização de ler livros: ele passou aqueles anos lendo e relendo os clássicos americanos e ingleses. E eu lhe contei que o que me salvou quando eu era estudante no Arizona, à espera de crescer, à espera da hora de fugir para uma realidade mais ampla, foi ler livros traduzidos e também livros originalmente em inglês.
Ter acesso à literatura, à literatura do mundo, era escapar da prisão da futilidade nacional, da vulgaridade, do provincianismo compulsório, do ensino vazio, dos destinos imperfeitos e da má sorte. A literatura era o passaporte para entrar numa vida mais ampla; ou seja, a região da liberdade.
Literatura era liberdade. Sobretudo numa época em que os valores da leitura e da introspecção são tenazmente contestados, a literatura é liberdade.”  
  
Susan Sontag em "Literatura é Liberdade"  - Discurso ao receber o prêmio Friedenspreis

sábado, 10 de dezembro de 2011

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Pão de açúcar: lugar de gente feliz

É provável que uma porcentagem bem alta de brasileiros já tenha presenciado ou participado de práticas racistas ao longo da vida. É provável também que a maior parte deles nem se dêem conta disso. Recentemente, enquanto fazia compras em uma unidade da rede de supermercados Pão de Açúcar, ouvi (a contragosto é verdade) um diálogo de teor racista e particularmente desagradável. Minha aversão resultou não só do conteúdo deplorável, como também do tom ameno e alegre com que a conversa se desenrolou, em meio a uma degustação promocional de vinho. A violência, quando acompanhada de alegria e descontração se torna ainda mais grotesca porque evidencia o júbilo do agressor. Stanley Kubrick choca tanto em Laranja Mecânica porque mostra exatamente essa espécie de comportamento. Afinal, quem esquecerá a cena de Alexander DeLarge espancando e cantando Singin` in the Rain ?
Não creio, é claro, que os interlocutores em questão tenham sentido o prazer maligno do personagem de Kubrick. No entanto, o assunto racista da conversa (pesado) foi recebido tão naturalmente a ponto de ser incapaz de perturbar a atmosfera leve dos sorrisos e das amabilidades, a brandura. As  protagonistas, duas mulheres – uma cliente idosa e outra funcionária jovem – revelam o aspecto difuso do preconceito, que não se restringe a uma determinada classe ou geração.
O diálogo que ouvi não é um caso isolado. Sua insensibilidade mostra a face perversa do Brasil racista. Mostra também o quão prejudicial se torna um problema social quando o mesmo é negado, disfarçado através de palavras eufêmicas como “gente de cor”, “colaborador” (trabalhadores braçais da indústria), “secretária do lar”( empregadas domésticas) , expressões tão em voga e que vieram a calhar com o sentimento conflituoso de culpa e egoísmo das classes média e alta brasileiras. Eufemismos que reforçam o estado letárgico e conformista das suas vítimas.
O cuidado com as palavras é importante. Não acredito que ações e atitudes democráticas, o respeito e a civilidade em uma sociedade, possam surgir sem que passem antes pela linguagem (ou pensamento).
A palavra escrita tem um poder maior de nos fazer refletir e trazer à tona o absurdo do real. Assim, transcrevo o que ouvi na tentativa de evidenciar o grotesco que o cotidiano pretende sempre ocultar.

                                                                               ***
Funcionária: uma vez namorei um homem “de cor” e minha mãe não gostou.
Senhora: ah ela ia gostar da minha terra, lá no sul. Só tem gente branquinha.
Funcionária: é que somos descendentes de portugueses.
Senhora: é, português não gosta mesmo. Mas agora as moças estão melhorando com essa coisa de alisar o cabelo.
Funcionária: as mulheres não gostam tanto dos homens, mas o estranho é que eles adoram uma mulata né...
Senhora: sabe o que é menina? É que quando os portugueses vieram ao Brasil só tinha mulata e índia. Aí tiveram que ficar com elas mesmo, não tiveram opção.

                                                                               ***


sábado, 26 de novembro de 2011

Breve esboço dele

Aquele modo desajeitado de andar, aquela voz truncada (como se possuísse um nó na garganta) e o discurso teatral, sim, observei. É a postura de um homem desesperado por uma identidade singular. A obsessiva e intranqüila luta por uma autenticidade monumental, derivada da crença ingênua em si, como ser exemplar, fez com que se afastasse da vida. O problema é que a busca por tal distinção (ou a tentativa de) fez com que sacrificasse prazeres importantes (de forma inconsciente mas nem por isso menos penosa). Afinal, é uma ambição que requer do indivíduo árduo labor, vasta energia despendida, e que pressupõe, acima de tudo, a falta de relaxamento. No entanto, são exatamente tais prazeres abdicados, desdenhosamente desacreditados, que poderiam tê-lo salvado deste espantoso estado de estupor em que se encontra hoje, ao restituir-lhe a espontaneidade há muito perdida. Tais abnegações, naturalmente, ele as ignora completamente, já que é incapaz não só de tomar contato com o que é prazer, como também de saber o que é desejo, de identificá-lo.
O fato é que, em algum ponto da caminhada, em alguma encruzilhada e de forma temerária, subestimou as palavras imaginando ser hábil o suficiente para determiná-las, não lhe ocorrendo, sequer um instante, a possibilidade de estar sendo determinado por elas. Perdeu-se, assim, no insidioso labirinto do discurso.
Quando, por vezes, busca o olhar do outro, o faz em vão, já que por meio do diálogo vazio, repleto de referências intelectuais soberbas, ou pela racionalização excessiva, trazendo à tona um discurso impessoal, excludente, que o distancia, inadvertidamente, do seu alvo – o indivíduo a sua frente. A razão do fracasso em afetar o outro reside na frieza emocional dessa espécie de discurso e do modo como, através dele, aquele que fala contorna-se, deixando de dizer sobre si (e de estar em si). Essa postura não poderia deixar de causar repulsa àquele que ouve e que esperava ser seduzido e não ensinado. O âmbito privado, no qual a retórica genérica, racional e abstrata fenece, é o lugar sagrado em que o sentimento habita.
Tais são as impressões que tive, desse homem pedante porque inseguro e temente de rejeição. Quanto à vida, dela se afasta continuamente à medida que a morte se aproxima sempre, e na medida em que é incapaz de ater-se ao real. Incapaz de fundir-se ao concreto, como competente amante, poderia ao menos com ele chocar-se, ainda que desse atrevimento adviesse dor, trauma, ferida aberta.

domingo, 6 de novembro de 2011