Devia era de estar aborrecido, crendo a vida lugar de poucas satisfações para ter feito o que fez. Ou pegou nojo de realidade, quem sabe?
O fato é que meu pai se emburacou para nunca mais voltar. Deu que no dia dezesseis, acordou emburrado, de olhos longos e fundos, cheio de remelas por cara não lavar e saiu para a rua como de costume, oito em ponto, com maleta cheia de livros de histórias. Depois voltou jamais, nunca mais o soube de vista, só de ouvidos. E falaram que ele quis viver feito minhocuçu, aterrado em subsolo da grande cidade. É o que se conta. Vi eu não vi, mas não duvido nem nego. Bem capaz, é o que digo, se me perguntam.
Sei que ele era homem de letras e que seu maior divertimento era essa coisa tola de ler sentado no metrô. Ele me dizia que detestava quando o destino se achegava porque deveria interromper a leitura, subir as escadas e voltar à quentura do sol, para suar que nem cão sujo e empertigar-se de tanta crueza e chatice de vida. Quando víamos juntos as celebridades na televisão ou alguma alma empinada de si pelas calçadas, ele se ria dizendo que a nobreza de hoje é senão uma piada, que se existiu nobre um dia foi aquele do já existido em Idade Média, de castelos e reis maiores. Dizia a mim que não me molestasse correndo atrás de todas essas coisas vãs da publicidade, nem esse status de se ter, satisfações pequenas, frutos da incompetência de se criar algo seu, de valor. Todas essas porcarias, meu filho, meu pequeno José, nada fornecem ao seu coração de menino, a não ser pequeneza de homem fraco. Se quer ser valente, brioso, tem de se aventurar por algo que lhe queime o corpo, por desafios grandes e por um belo pensar. Há de buscar o amor que não seja o comprado nem o vulgar e produzir uma arte ou um intento que seja só seu. E deve olhar para o outro para muito ajudar, que olhar só para si é canalhice de gente endemoniada. Ele , meu pai, não queria saber dessas coisas práticas da modernidade e a mim passou essa visão cética de só querer o necessário de comer e morar. Ensinou-me também a orar.
Meu amigo Carlos, que freqüentava meus lares, dizia que meu pai era somente um doidivanas. Eu nem confirmava nem desmentia, dizia apenas, bem capaz Carlos. E que seu destino não podia ser outro senão o da loucura insana, insanidades. É o que todos pensam hoje, que até documentário na televisão passou, sobre homem que morreu velho no metrô, que ali sentou com muitos livros lendo sem parar, só saindo do vagão para cagar, tomar água e comer doces sortidos que eram vendidos em uma ou outra parada. Depois retornava ao vagão a ler infinito por destinos múltiplos que jamais chegavam, a não ser o da morte um dia, sua última estação. Eu nunca liguei para tais dizeres, de pessoas impressionáveis que a tudo choca, que só saudade do meu pai eu tenho, ele que me ensinou a não ter tais espécies escrupulosas de vergonhas. Quase vergonha nenhuma, dele apreendi.