terça-feira, 3 de julho de 2012


Pudera ter sonhos, febril
Pudera ter artes, querelas
Pudera ser forte gentio
Pudera ser outro pudera

Quem sabe nadar pelos rios
Quem sabe corrê-los a vela
Pudera ser nobre gentil
E quereria então a donzela

Pudera tecer outros fios
Pudera esquecer tais mazelas
Pudera ser outro, sadio
Um outro em mim prepondera



segunda-feira, 4 de junho de 2012

quinta-feira, 10 de maio de 2012


terça-feira, 24 de abril de 2012



Ontem estive na livraria e deparei-me com um livro de Freud, Luto e Melancolia, uma edição (como sempre) bela da Cosac Naif, traduzida diretamente do alemão para o português. Como é pequeno pude lê-lo quase todo ali mesmo, mais a introdução da Maria Rita Kehl. Ainda que o livro seja considerado fácil por especialistas, os leigos que não se iludam, ele é abundante em expressões e conceitos psicanalíticos que nos farão boiar vez ou outra. Isso não impede a validade da leitura que poderá trazer-nos um lume acerca desses sentimentos tristes tão difíceis de serem descritos, nomeados, classificados e compreendidos. Quantas vezes sentimos uma tristeza inominável, sem um porquê, sem um objeto?
De mais divertida e fácil apreensão, no entanto, é a explicação que os homens do período clássico davam ao melancólico, e que Maria Rita Kehl nos conta em sua nota introdutória. Para eles, o melancólico (que por vezes se torna maníaco) não carregava um sintoma mas um traço de personalidade caracterizado por picos alternantes de tristezas e alegrias.  Ele também era considerado um homem de gênio, mais propenso à arte criadora, à imaginação.
A explicação para os diferentes humores era dada pela coexistência de quatro substâncias no corpo humano: sangue (quente e úmido), fleugma (frio e úmido), bile amarela (quente e seca) e bile negra (fria e seca). A prevalência de uma delas sobre as outras marcava a personalidade: sanguínea, fleumática, colérica ou melancólica. Também os planetas interferiam nessa caracterização. No caso do melancólico, saturno.



sábado, 14 de abril de 2012

Jorge de Burgos e Jorge Luis Borges

Que coisa. Há poucos meses li “O Nome da Rosa” de Umberto Eco. Agora (tentando) ler alguns contos de Jorge Luis Borges: O ALEPH – contos estranhos, eruditos. O grande autor quis escrever para poucos é certo. Quem afinal já encarou Homero e Virgílio? Não muitos ( nem eu!). De todo modo tentamos, com boa vontade, descobrir o mais consagrado dos escritores portenhos e sua afamada literatura fantástica.
Mas não era exatamente desses percalços que gostaria de mencionar, mas apenas uma curiosidade saborosa: a de que o personagem “Jorge de Burgos”,uma das figuras mais marcantes – e sinistras- de “O Nome da Rosa” seria uma homenagem de Umberto Eco a Jorge Luis Borges. Será? Homenagea-lo através da figura de um vilão?
De todo modo, as coincidências são muitas e vão além do prenome: ambos apresentam uma erudição espantosa, foram responsáveis por cuidarem de bibliotecas e perderam gradualmente a visão na velhice. E até a descrição física do personagem assemelha-se à figura real do escritor argentino. Com tantas semelhanças é tentador imaginar que sim, que Umberto Eco inspirou-se em Borges na criação de um dos seus personagens mais famosos. Quem poderia imaginar, ao ler “O Nome da Rosa”, que o escritor argentino estivesse ali?

terça-feira, 13 de março de 2012

Do que disse a Jorge

Disse a Jorge que a origem do sacrifício não era primariamente generosa. Ele certamente refutou, enquanto comíamos batatas fritas em uma lanchonete no centro da cidade. Recriminou-me, antes de tudo, por sua inclinação religiosa (embora não admitisse). Como poderia ser diferente se admirava São Francisco de Assis e todos os mártires católicos. Mais que isso, Jorge admirava todos os mártires e desejava ele mesmo ser um mártir.
Calçava naquele dia o velho sapato de couro que eu havia lhe dado há tantos anos, no único natal em que estivemos juntos. Naquele natal em que ele, longe da família, e eu, sem família, fomos quase que impelidos forçosamente um ao outro.
Vestia também uma de suas inúmeras camisetas Hering branca e afundava-me, como já era costume, uns olhos tristes e misericordiosos que não mais me incomodavam. Deles inclusive aprendera a gostar porque aparentavam distinção, só Jorge era capaz de carrega-los assim, pesados, cheios de força. O segredo de amá-lo tanto era esse olhar úmido?
Jorge, seus olhos estão lacrimosos de novo. Ele sorria, afagava minha mão e sorria. Eu sentia que ele era o único que poderia compreender-me a ponto de não sentir-me só. Jorge milagrosamente existia e discutíamos bobamente sobre o sacrifício que uns fazem durante suas vidas:
Antes de o fazerem exclusivamente para o bem do outro, numa ação genuinamente altruísta e doadora, o fazem para sua própria salvação, a fim de aplacar o cotidiano vazio de ideais da modernidade. Para que possam contemplar nos seus dias um ato de concretude, de realização. Não é fácil atravessar seus dias percebendo-os inócuos. Vê Catarina. Ao deixar de viver somente para si e ajudar o tio enfermo, foi mais capaz de suportar (e até com espantosa vivacidade), sua rotina desumanizadora de trabalho. E desde então, por saber que lhe faz bem, deu de ajudar a todos, como uma Madre Tereza de Calcutá. E é como se a todos amasse agora. Não sei bem. De todo modo se a causa é egoísta, a consequência é de natureza oposta, razão pela qual a ação como um todo se faz admirável. Pouco importa o tema do “grande sacrifício”, pode ser um filho, uma arte ou toda a humanidade e desde que haja um, será possível uma espécie de alegria. É o caso dos que buscam hoje preservar o meio ambiente. Preservam, contudo, a si mesmos, afastando-se das angústias e problemas sociais a que estão, eles próprios, submetidos. 
Depois de um pouco de silêncio, Jorge balançou a cabeça relutante, inclinou-se para mais perto de mim, apertou meus dedos calorosamente e disse, não Clarisse, se um se move na direção do outro para ajudá-lo é por amor, e tão somente.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sobre o ato de ler


O escritor israelense Amos Oz, ao ser perguntado a respeito do leitor ideal, no programa de televisão Roda Viva, respondeu que, para ele, o bom leitor seria aquele que não buscasse no livro o autor (ou, em outras palavras, que quisesse através do livro descobrir o escritor) e sim aquele que deparasse consigo mesmo nas páginas da história, que fosse capaz de identificar algo seu ali, reconhecer-se na obra. As palavras exatas me falham a memória, mas não o sentido geral delas, o qual gravei e vez ou outra me salta à lembrança. Agrada-me a posição ativa dessa definição de “bom leitor”, como sujeito capaz não tanto de captar informações mas de incorporar-se ao livro (e deixar , desse modo, que o livro se mescle à sua vida – transformando-a talvez?).
Já me peguei em um pequeno imbróglio filosófico, fazendo-me a seguinte pergunta, de caráter utilitarista: se é tempo demasiado perdido o que se gasta lendo, silenciosa e só enquanto um mundo de produção e movimento me espreita da janela. Depois reflito que esse “viver mais” pode não significar viver melhor e que a imaginação literária, aquilo que não existe, pode ser exatamente a mais rica fonte de vida e sentido da realidade.