Disse a Jorge que a origem do sacrifício não era primariamente generosa. Ele certamente refutou, enquanto comíamos batatas fritas em uma lanchonete no centro da cidade. Recriminou-me, antes de tudo, por sua inclinação religiosa (embora não admitisse). Como poderia ser diferente se admirava São Francisco de Assis e todos os mártires católicos. Mais que isso, Jorge admirava todos os mártires e desejava ele mesmo ser um mártir.
Calçava naquele dia o velho sapato de couro que eu havia lhe dado há tantos anos, no único natal em que estivemos juntos. Naquele natal em que ele, longe da família, e eu, sem família, fomos quase que impelidos forçosamente um ao outro.
Vestia também uma de suas inúmeras camisetas Hering branca e afundava-me, como já era costume, uns olhos tristes e misericordiosos que não mais me incomodavam. Deles inclusive aprendera a gostar porque aparentavam distinção, só Jorge era capaz de carrega-los assim, pesados, cheios de força. O segredo de amá-lo tanto era esse olhar úmido?
Jorge, seus olhos estão lacrimosos de novo. Ele sorria, afagava minha mão e sorria. Eu sentia que ele era o único que poderia compreender-me a ponto de não sentir-me só. Jorge milagrosamente existia e discutíamos bobamente sobre o sacrifício que uns fazem durante suas vidas:
Antes de o fazerem exclusivamente para o bem do outro, numa ação genuinamente altruísta e doadora, o fazem para sua própria salvação, a fim de aplacar o cotidiano vazio de ideais da modernidade. Para que possam contemplar nos seus dias um ato de concretude, de realização. Não é fácil atravessar seus dias percebendo-os inócuos. Vê Catarina. Ao deixar de viver somente para si e ajudar o tio enfermo, foi mais capaz de suportar (e até com espantosa vivacidade), sua rotina desumanizadora de trabalho. E desde então, por saber que lhe faz bem, deu de ajudar a todos, como uma Madre Tereza de Calcutá. E é como se a todos amasse agora. Não sei bem. De todo modo se a causa é egoísta, a consequência é de natureza oposta, razão pela qual a ação como um todo se faz admirável. Pouco importa o tema do “grande sacrifício”, pode ser um filho, uma arte ou toda a humanidade e desde que haja um, será possível uma espécie de alegria. É o caso dos que buscam hoje preservar o meio ambiente. Preservam, contudo, a si mesmos, afastando-se das angústias e problemas sociais a que estão, eles próprios, submetidos.
Depois de um pouco de silêncio, Jorge balançou a cabeça relutante, inclinou-se para mais perto de mim, apertou meus dedos calorosamente e disse, não Clarisse, se um se move na direção do outro para ajudá-lo é por amor, e tão somente.