quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
"Ávidos de ter, homens e mulheres
Caminham pelas ruas. As amigas sonâmbulas
Invadidas de um novo a mais querer
Se debruçam banais, sobre as vitrines curvas.
Uma pergunta brusca
Enquanto tu caminhas pelas ruas. Te pergunto:
E a entranha?
De ti mesma, de um poder que te foi dado
Alguma coisa clara se fez? Ou porque tudo se perdeu
É que procuras nas vitrines curvas, tu mesma,
Possuída de sonho, tu mesma infinita, maga,
Tua aventura de ser, tão esquecida?
Por que não tentas esse poço de dentro
O incomensurável, um passeio veemente pela vida?
Teu outro rosto. Único. Primeiro. E encantada
De ter teu rosto verdadeiro, desejarias nada."
Hilda Hilst em "Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão"
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Sobre um rosto e suas sardas
Porque tomaste chuva
Porque criança foras
Assim ficaste:
Enferrujaste
Este que é
Teu mais belo contraste
Ser um rosto que é só
Sem pé de igualdade
A mim restou o tempo
Esse embuste destarte
Fiquei mais que só
Fiquei com saudade
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Homenagem a meu quarto
Moro em um lugar feio. Mas crio um mundo de prazeres nos poucos metros quadrados do meu quarto. Lá fora, a rua fede, a poeira sobe. Depois chove e vira lama para que os homens se sujem todos. O sol que arde lhes tinge a pele fazendo-a transpirar. Fazendo-a envelhecer. Lá fora, onde o sertanejo vulgar toma conta da boca dos homens autômatos. Onde os bêbados reinam em seus botecos degradados; aflitos com seu tempo livre e com o parco amor de suas mulheres. Onde reina a destruição. Mas aqui no meu quarto meu corpo e minha alma se regalam. Que crio o alívio da limpeza e do bom cheiro. A temperatura amena e o silêncio cheio de paz. Onde crio a meia-luz que dá descanso a minha vista; a penumbra que me remete ao mundo dos meus sonhos. Das histórias fantásticas dos meus livros. Por aqui, as bestas se calam para darem vozes aos grandes autores e seus personagens. Eu, meus livros e minhas melodias. Eu e minhas melhores lembranças. Eu e minhas esperanças. Aqui, meu sonho reside e flana. Junto do sabor divino das castanhas.
domingo, 28 de novembro de 2010
sábado, 27 de novembro de 2010
Trecho: "A Montanha Mágica"
"Não é fácil precisar seus pensamentos, visto serem obscuros e confusos, mas parecia-lhe, em suma, que a honra oferecia consideráveis vantagens, mas que a vergonha não as tinha menores, e que as vantagens desta última eram quase ilimitadas. Enquanto, a título de experiência, representava no seu espírito o papel do Sr. Albin e imaginava o que significaria ver-se definitivamente livre da pressão da honra e gozar para sempre as imensas vantagens da vergonha, assustou-se o jovem diante de uma sensação de gozo dissoluto, que lhe imprimiu às batidas do coração, por alguns instantes, um ritmo ainda mais acelerado".
Thomas Mann ( tradução de Herbert Caro)
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
sábado, 9 de outubro de 2010
Cachiblema
- tu sabe o que aconteceu com aquele cara?
- rapaz, a mulher matou.
- por que?
- porque ele não ficava longe da arma nem pra dormir.
- mas por que a mulher matou?
- ih.. isso daí foi cachiblema viu.
- que isso cachiblema?
- cachaça, chifre e problema.
- rapaz, a mulher matou.
- por que?
- porque ele não ficava longe da arma nem pra dormir.
- mas por que a mulher matou?
- ih.. isso daí foi cachiblema viu.
- que isso cachiblema?
- cachaça, chifre e problema.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Cantantes e Amortecidas
O que acontece com as cantoras brasileiras de hoje? Tão previsíveis e padronizadas. De uma estética construída e sem graça. Daquela beleza que satisfaz os que têm medo do novo, da ruptura. Digo das atuais cantoras de samba, tão em moda, tão bem ditas. Todas iguais. Moças delicadas, com um quê de descolado. Fingindo para si mesmas (e para os tolos) que não fazem parte das mulheres fúteis só porque cantam (eu digo cantam e não interpretam) Cartola e Noel rosa. Flores na cabeça, cabelo encaracolado, vestidinho de algodão. A voz suave e polida. Despersonalizada. Muitas vezes a letra vem pretensiosa, incompatível com sua postura no palco, contida e ensaiada. Delas não se faz uma. Todas são um eco da produção. Feitas para serem agradáveis, afinadas e óbvias. Não que elas não tenham sua utilidade. São perfeitas como música de fundo em um café. Poderiam fazer parte do repertório do Starbucks por exemplo. Mas são incapazes de emocionar porque não são artistas. Falta força, energia. Basta rever uma interpretação de Elis Regina ou Cássia Eller para perceber a ausência de personalidade própria e naturalidade dessa nova geração. Para quem sente, ser bonitinha não pode vir antes do que simplesmente ser.
sábado, 11 de setembro de 2010
A Caricatura
Uma caricatura se esguelha pela rua
Se contorce no espaço a criatura
Presa no discurso do falado
Nessa ventura
Já não sabe o que se é
A não ser:
Enfado.
Se contorce no espaço a criatura
Presa no discurso do falado
Nessa ventura
Já não sabe o que se é
A não ser:
Enfado.
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