domingo, 6 de março de 2011

A Chuva do Norte

Soa o trovão estrondoso - escurece - nuvens negras cobrem o céu azul. Um sopro fresco alivia rostos morenos do calor e um vento forte desafia a rigidez das plantas; as estruturas frágeis das casas simples. São prenúncios de chuva na região norte. Ela cai sobre a mata e calçadas, homens e bichos se escondem. A chuva é dadivosa no norte. Seu estribilho acalenta os corações apertados que ali vivem porque sobe da terra um cheiro de terra prazeroso, as ruas esvaziam, silenciam e o ar refresca. A chuva do norte é branca e pacifica - chuva água que intensifica o que é bom e esconde o ruim. Que vontade de ouvir seu burburinho de gota batendo na folha, no galho e no telhado por muito e muito tempo, música boa de se ouvir. A chuva balança o rio e faz com que ele cresça ameaçador sob a ponte, com que avance centímetros assustadores. A criança na janela da casa de madeira olha a chuva desconfiada, os adultos se escondem e vão ver televisão; os adultos se esqueceram de quão impressionante a chuva é. Basta mira-la por alguns  segundos para então perceber toda sua beleza.
Não pare chuva de chover, chova mais e conte ao homem a história de sua eterna pequenez; do seu controle ilusório da natureza. A chuva do norte não tem igual, é como um deus poderoso que desce dos céus para se exibir aos homens e lembrá-los de que há algo grandioso no entorno de si.


sexta-feira, 4 de março de 2011

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O absurdo de ser mar no interior do mundo
E de ser sal do que é ser mar 
Na água doce do rio
É ouvir marulhos no interior da terra
E fartar-se da vaga

Ressentida condição do mar
Ressequida
Essa de ser água e sendo pedra
Molhar-se da lava

Quentura que vem do fundo

"Ó tirânico Amor, ó caso vário
Que obrigas um querer que sempre seja
De si contínuo e áspero adversário..."
                                     
                                       Luis Vaz de Camões 

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Na roda das palavras medidas

Na roda das palavras medidas, no churrasco de imitações, são pães, vinagrete e aquilo que está em voga. Frases da última moda minadas pela coleção outono-inverno. Uma cabeça assente seu verbo recém comprado e ainda se gaba de que foi na promoção. Outro pescoço, com colar e auréola, arremata: já meu clichê foi de brinde, por bom comprador que sou. Mas no meio das almas recostadas algum coração pulsa. Algum tufão. Alguém se contrai muito a contragosto e  oculta o milagre. Aquilo que assombra e vivifica.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011


"Qué sería, pues, de nosotros, sin la ayuda de lo que no existe?"  (Paul Valéry)

 

sábado, 29 de janeiro de 2011

Conversa com Dheimersson

Olha lá atrás da folha do embaubeiro, ta vendo de costas? Ela come a embaúba. Tu sabe o que a onça faz? Fica esperando a preguiça descer para defecar e ataca. Mas aqui tem onça? Não, só no seringal. É longe daqui? O seringal vem depois da colonha. Tem também o gogó de sola. Se ele pega seu pescoço só solta se cortar a cabeça. E os índios comem.  Isso são os seringueiros que contam. Ali tem um córrego né? Tem um igarapé mas já esqueci o nome...olha ali tem mais duas, a mãe e a filha. Essa outra já congelou, encostou a cabeça no galho e já era, congelou.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Sem limites para a baixeza - esse mundo cão

 Muita chuva. Um acidente de carro no interior do estado do Acre. Na curva o carro derrapa, um homem ao volante perde o controle. O veículo cai ribanceira abaixo, capota e vai parar em um pequeno riacho enlameado, repleto de formigas. O motorista se afoga com a cabeça na água, impedido de se movimentar pelo cinto de segurança. Um rapaz que viajava ao seu lado ,  livre do próprio cinto, consegue socorrê-lo. No banco de trás , uma mulher  também fica presa, dessa vez o que a imobiliza é uma dor insuportável no pé . Enfim livres, os homens  correm para ajudá-la. Caminham os três pela mata úmida, ela apoiando-se neles ,até alcançarem a beira da estrada. A chuva ainda cai. Alguém chama uma ambulância. Nela os três viajam molhados e arrasados até a cidade mais próxima e são levados para um hospital precário. Uma vacina para tirar a dor que queima o ombro do rapaz. Uma faixa é enrolada no pé dolorido da moça. Ela pega o telefone para ligar para sua família no Rio de Janeiro. Titubeia com o celular na mão. A emoção enfim chega. Escorrem lágrimas. Também o rapaz se emociona e a consola com um beijo na testa. Silenciosos e ternos. Perguntamos o que eles querem. Dizem apenas, queremos chegar logo em casa. Referem-se não a suas verdadeiras casas, a milhares de quilômetros dali, mas à capital, Rio Branco. Teriam ainda que encarar mais estrada debaixo de chuva para chegar até um hospital que tivesse pelo menos um raio x. Pois a moça queria saber mais do seu pé e o rapaz mais do seu ombro.  Solicitamos então o serviço de dois motoristas contratados pela instituição que os jovens trabalham para levá-los. Ambos estavam ali próximos e disponíveis. Ambos recusam. Os motivos: um deles estava de férias e tinha medo de descumprir esse pequeno entrave burocrático. Por moleza, frieza e passividade. O outro simplesmente não dá explicação satisfatória;diz que não se sente bem. Mentira. Estivera bem por toda manhã, estivemos com ele. Rumores de que o intuito das recusas foi forçar a vinda de um terceiro motorista de Rio Branco, para que o mesmo ganhasse um adicional no seu salário no final do mês. Por conta disso, os acidentados tiveram de aguardar oito horas ao invés de três para serem atendidos em um hospital minimamente equipado.  Nesse meio tempo, alguns homens passam pelo local do acidente e vêem o veículo ali de rodas para o ar, quase todo destruído mas com os pneus ainda aproveitáveis. Verificam que a bateria ainda esta boa também. Retiram as partes do automóvel imaginando o bom negócio que poderiam fazer com elas. Quem sabe não conseguiriam quinhentos reais? E seguem felizes, contentes com a grande sorte do seu dia.  
  

sábado, 22 de janeiro de 2011

A tela luminosa nos aliena da única realidade possível e nos leva a uma terra inexistente , repleta de seres que não estão e de paisagens inócuas. É imperiosa a força que a realidade imprime  ao sujeito, quando exacerba seus sentidos. Assim, menos forte e pungente é aquele que mais se aparta da sua realidade, pois não se pode fazê-lo sem que  se aparte um pouco de si.  Por prudência e amor próprio, olhemos para a tela luminosa reconhecendo seu lado perverso e sua ilusão. Que ela até promete e recorda mas nunca é. A tela luminosa é apenas isso: um pouco de luz.  E o que existe mesmo não é muito, pois coragem.  Então  reconheço o cheiro que sobe da terra molhada. O som dos pássaros que vivem na pequena mata. O animal preguiça agarrado no coqueiro. A dor na perna depois da corrida. As caras tristes das pessoas coitadas. Notas fiscais. E o céu azul.