quinta-feira, 16 de junho de 2011

Renaud Garcia Fons - Aqa jan



"I had a dream about a bass—half Gypsy, half Mediterranean—that traveled from India to Andalusia, passing by the Mediterranean, north or south. Yet the bass is neither a traditional nor an oriental instrument. But its range of sonorities and the way it is played upon—both pizzicato and con arco—seem to make it feel comfortable in the neighborhood of certain instruments at home in the oriental world..."  Renaud Garcia Fons 

De: www.allaboutjazz.com

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A Vaidade é Brega

Certa feita, o filósofo Luis Felipe Pondé finalizou uma das suas colunas – no jornal "A Folha de São Paulo"- dizendo que a vaidade era brega.  Gostei tanto da qualificação, embora tenha soado um pouco estranha de início, que desde então, quando vejo alguém pavoneando por ai me lembro dela. E a breguice cabe tão bem à vaidade por ambas serem dignas de chacota. Quando a vestimos nos tornamos seres risíveis, patéticos, colocamos a máscara tola de um bobo da corte e saímos à rua. Cabe esclarecer, porém, que não me refiro precisamente àquela vaidade dos atributos físicos, dos perfumes e das maquiagens. Nada a ver com o jogo sexual de corpos desejosos e desejados. Tampouco se relaciona a uma  auto – estima favorável  já que esta vaidade não passa de umas das muitas medidas desesperadas que um ego suplicante toma para sustentar-se.  Explico-me, portanto.
Vaidade aqui é o valor extremado – desproporcional- que um ser faz de si e de tudo o que lhe diz respeito: do que fala, veste, come, vê; é a certeza de que ele está sendo atentamente observado, de que sua opinião importa muito a muita gente e de que mobilizações advirão a cada ação ou omissão proporcionada. Sua condição patética se dá por desconhecer sua própria pequenez, pela falta de humildade que é resultado senão de uma ignorância profunda do tempo e espaço em que vive. É exatamente aquele tipo que todo mundo já deve ter enfrentado no trabalho ou em uma mesa de bar falando histericamente de si, condicionando seu próprio valor ao status que seu trabalho, mulher, marido, carro, casa ou viagem de férias possui no mercado social.  É o vaidoso que gasta tempo e energia preciosos para que seja visto pela massa disforme (a qual ele mal vê e pela qual nada sente). Não é difícil perceber que tudo isso leva a uma terrível frustração na medida em que  a postura do vaidoso, embora ativa, não garante, ou pior, atrapalha relações afetivas profundas.  
Vale ainda observar que a direção dos nossos esforços vaidosos pode nos sinalizar o quão importante eles são: se a um individuo específico; há de serem valiosos pois uma pessoa é capaz de amar e ser amada nos trazendo imensuráveis recompensas emocionais.  Se a um grupo social; não. Neste caso a vaidade poderá ser um verdadeiro pecado capital.

domingo, 12 de junho de 2011

segunda-feira, 9 de maio de 2011

sábado, 30 de abril de 2011


" A mi, no el saber (que aún no sé) solo el desear saber me ha costado gran trabajo."

Sóror Juana Inés de la Cruz


sexta-feira, 29 de abril de 2011

Pequena reflexão sobre o tempo


O tempo daquele que espera cresce no presente e morre no passado. No agora ele existe gigantesco para depois, no futuro, quando relembrado, inexistir, por nele não ter ocorrido impressões marcantes. Nessas ocasiões fica fácil perceber que o tempo só existe no presente. Quando nos referimos a um tempo que se foi, nos referimos somente a uma memória. Isso explica o senso comum de que a pessoa que foi mais ativa aproveitou melhor a vida. Como se o tempo transcorrido pudesse ser recolhido através das suas memórias e guardado numa caixinha no fundo do armário. Essa é a promessa de uma velhice mais livre de amarguras e arrependimentos. Uma ilusão na verdade. O tempo  sempre flui, o perdemos inevitavelmente e de forma constante. Por isso é inconsistente afirmar que uma vida repleta de memórias seja melhor que outra mais vazia delas. Muito menos que uma coleção de lembranças acalenta o homem no final da vida. Na realidade mal pode-se falar de “uma vida bem aproveitada” e tão somente “vive-se bem”.  Por isso, erram tanto os mesquinhos quanto os inconsequentes, a juventude romântica que vive o presente negligenciando as dificuldades que poderão encontrar na velhice, sem planos ou provisões para a mesma. Vale dizer, a velhice só será doce se naquele momento houver açúcar. Não adiantará de nada a lembrança de que um dia os teve aos montes.  


domingo, 24 de abril de 2011

A Criação de Vitória

Bruta solidão Vitória, bruta. Arremeda o som do pássaro, canta a gaivota , imita o verão. Não urubus, não a realidade. Não a pedra e a mata verde escura, não o rio que inunda e os homens rotos. Nada de casas toscas, madeiras empilhadas, cobras serpenteando águas enlameadas no fundo do quintal, ruas esburacadas. Vitória quer criar-se através do oculto, das histórias e dos mistérios. A passividade lhe aflige, a formação do seu ego é uma imensa batalha travada pela ação. Criar-se, trabalho hercúleo. 
Assim, em um dia comum, Vitória se esclarece. Percebe que só receber os estímulos do mundo não mais lhe cabe. Que assim será a não ser ninguém. Resolve no dia doze do mês de outono arremessar-se, despir-se da sua “persona”. Quem mais? Ela, só ela; então Vitória. Primeiro quis desfazer-se de tanta lógica, tanta linguagem pensada que desfigurava seu ser – deformava-o.  Procurou lembrar dos seus sonhos , do que lhe aparecia de olhos fechados, relatos de outro continente. Mergulhou cheia de medo nessas águas escuras, relatou em papéis toda a violência do outro mundo e seus desejos inconfessáveis. Vitória ardeu naquele labirinto, morreu de sede e de fome, enfrentou figuras mitológicas, viu dragão, depois minotauro, colocou sua boca na boca de outros sexos. Também quis matar. Vitória não era boa nem má. Vitória insensata cheia de ódio amarelo, raiva vermelha. Vitória, de repente, era azul.
Febril amplidão Vitória, febril liberdade de ser. Desde então ativa, pois sôfrega por seu temerário caminho, por sua breve estada. A consciência da fugacidade do tempo, da infinita renovação das coisas a qual faz parte, do retorno e retorno e retorno. Desde então sua dor e si: essas duas fontes –duras fontes- de vida e enfrentamento. Despe-se, procura o contato com o próprio corpo, conhecer-se como sensação física. Seu corpo não era menos de si, ele dirigia suas vontades como um deus rumo ao indistinto, ao não planejado. Ele como fonte de força e graça. Nua pôs a mão em si, pôs seu corpo sobre outro e através do outro percebeu-se.  Ser pleno é atravessar um outro Vitória – não é ser só. Então lapida a bruta solidão Vitória, lapida. E faz pérola o diamante.
Sim, que esteve cativa, anos e anos no embuste padrão, naquilo que não se sente. Não se sente, não se é. Agora liberta, Vitória busca uma arte, uma expressão para si, suas cores. É preciso dizer a seu modo, claro. Então sê , então diz: invólucro, água, gato, arremata. Diz tudo que lhe encanta. Afinal, afinal. Canta mais. Seguiu uma busca por corantes, adquiriu aquarela e desenhou no papel alguns traços: redondos, retos, entrelaço. E formou uma imagem multicores inexata, sem igual na natureza ou somente na natureza de si mesma. Lindamente capturou-se na tela e mostrou-a em exposição nacional. Outros olhos a sentiram delicados, todos nela. Vitória nascida, renascida. Vitória eterna.

domingo, 20 de março de 2011

A Cidade Branca

Pedras brancas macias, polidas pelos ventos, vastas colunas gregas ornam a cidade branca. Mármores e camafeus. Uma flor de lótus representa um deus no centro das suas praças circulares. Outro ser galopa, um unicórnio corta a brancura do ar, avança sobre fontes donde jorram leites, sobre templos. Jonathan é o único homem da cidade branca e se veste com uma máscara de Zeus. Ele talha esculturas brancas sobre sua cidade, perfaz estátuas de homens e animais que se espalham pelos quatro cantos do reinado. Inscreveu sobre uma pedra o formato da raia e sua longa cauda. Agora esculpe o quadrado e a estrela de oito pontas.
Circunda os limites da cidade, ondula, o mar cujas espumas claras trazem pequeninos cristais ovais para o baixio. Ali, aves pernaltas, de oito palmos redondos, dançam elegantes o canto sagrado do mar. Em tanto de seis movem-se harmônicas e circulares sobre a areia deixando nela a marca compassada das suas passadas. No segundo seguinte neva. Transpassa os corpos das pedras o som da harpa e por todo tempo, no horizonte, a luz se renova e atinge, com a união das suas cores, a alma de todas as coisas. Uma luz branca, sem sol, enorme por sua constância e intensidade.

sábado, 19 de março de 2011


De repente, a conclusão de uma angústia é a descoberta do nada. Da sua não-solução. Com que armas se avança no objeto ausente?  De repente, a imagem da angústia é o infinito do branco (onde nosso ser não se abriga). De repente, angustia o homem como sucede ao dia escuridão. Como pressuposto – ou condição.



 
Circles in a Circle - 1923

“Tudo que está morto palpita. Não apenas o que pertence à poesia, às estrelas, à lua , aos bosques e às flores, mas também um simples botão branco de calça a cintilar na lama da rua... Tudo possui uma alma secreta, que se cala mais do que fala.”

Wassily Kandinsky